Calípio sem estresse




Geraldo Hasse


No último fim de semana visitei uma fazenda no Capão da Areia, a 10 quilômetros do Oceano Atlântico, no litoral norte do Rio Grande do Sul. O nome do lugar vem do ecossistema ambiente: refere-se aos matos (capões) existentes naqueles solos predominantemente arenosos. Encontrei lá uma plantação de eucaliptos que impressiona pela convivência harmoniosa com a mata nativa.

O responsável pela propriedade conta que a fazenda foi comprada há 40 anos por seu pai, médico em Porto Alegre, que gostava muito de caçar. Com a espingarda levada no carro (tinha porte de arma), ele atirava em perdizes, marrecas, patos selvagens, lebres, capivaras, jacarés e tudo que rendesse um assado ou uma panelada. Matava para comer; comia porque gostava da carne de caça.

Assim que se acostumou à região rica em banhados, lagoas e várzeas, Dr. Alencastro tratou de fazer benfeitorias na propriedade, comprada por pouco mais que nada de um retirante do campo para a cidade - naquela época, vale lembrar, houve em todo o Brasil uma intensificação do processo migratório conhecido por êxodo rural. Exauridas pelo plantio sistemático de arroz e mandioca, aquelas terras precisavam de um descanso ou de um novo manejo.

Sem pressa e sem necessidade de fazer dinheiro, o novo proprietário brecou o desmatamento, preservando as manchas de mato que escondiam as vertentes da antiga Fazenda do Arroio, nome primitivo do lugar, da época das sesmarias do século XVIII, quando miles e miles de hectares pertenciam a um único proprietário, beneficiário da vontade do rei de Portugal. Agora, na segunda metade do século XX, o ex-latifúndio estava dividido em sítios, chácaras e fazendolas.

Pequenina, a propriedade comprada originalmente pelo Dr. Alencastro poderia ter crescido se ele aceitasse a oferta dos sitiantes vizinhos que, em retirada para a cidade, tentavam lhe vender um pedacinho de terra aqui ou ali. Sem ambição, ele se contentou em ficar com apenas 100 hectares e, modestamente, batizou a propriedade com um nome tirado de um seriado de tevê: Sítio Ponderosa.

Um resumo das decisões desse fazendeiro de fim de semana diria que ele deu prioridade à semeadura de pastagens e ao plantio de árvores. Segundo a moda da época, mandou plantar eucaliptos e pinheiros (nativos e exóticos) - não no exíguo espaçamento 3 x 2 preconizado pelos engenheiros florestais (raros, na época), mas a distâncias de 5 metros uns dos outros. Ao redor da casa e junto ao curral, também plantou frutíferas: goiabeiras, cítricos, mangueiras. Em resumo, achou que assim ajudaria a garantir o futuro dos três filhos.

A baixa densidade dos plantios arbóreos favoreceu o desenvolvimento de um sub-bosque de pitangueiras, branquilhos, maricás, araçazeiros e outras plantas nativas, especialmente a capororoca, que aparece com muito vigor em boa parte do litoral brasileiro - antes do eucalipto, sua madeira era usada na parte interna das moradias rurais. Outra surpresa do lugar é a existência de gramíneas e ervas rasteiras debaixo do arvoredo, onde se vêem cavalos e vacas pastando.

Nos anos 80, fez-se o primeiro corte dos eucaliptos, que tinham alcançado porte considerável. Permitiu-se a rebrota de alguns tocos, restabelecendo parte do eucaliptal. O pinus foi erradicado, para evitar que invadisse áreas vizinhas de campo, mas os calípios são bem vistos na fazenda. Tanto que novos talhões estão sendo plantados, com parcimônia e moderação, após mais uma colheita da madeira produzida nos últimos anos.

Como esta é a primeira vez que vejo um eucaliptal favorecer a regeneração de uma mata nativa, manifesto meu espanto e cobro explicações do herdeiro do Sítio Ponderosa. Afinal, já se associa o eucalipto a um "deserto verde", expressão criada em 1962 por Rachel Carson, autora do livro Primavera Silenciosa, pioneiro libelo contra as plantações maciças de pinus nos Estados Unidos.

Formado em agronomia no início dos anos 80, especialista em solos, o professor José Antonio de Alencastro diz que não há mágica nem mistério. "É só uma questão de manejo", afirma. Em outras palavras, ele quer dizer que, dependendo do modo como se conduz a plantação, um vegetal pode ser maléfico ou benfazejo. Assim: um plantio denso, contínuo e extenso pode configurar uma monocultura perniciosa; se o plantio for brando, maneiro e descontínuo, a biodiversidade pode ser até enriquecida.

Lição do dia/moral da história: é preciso manejar a terra com algo que o dinheiro não compra - amor, respeito, ternura.

ghasse@th.com.br