A morte no ar




Os crimes ambientais cometidos pela Vale do Rio Doce no Espírito apontam para a presença de um cúmplice importantíssimo: a empresa Cepemar, que se especializou em preparar relatórios de impacto ambiental favoráveis às poluidoras.

Essa empresa é hoje o principal pilar em que se apóia a Vale para levar adiante um dos projetos mais danosos ao ambiente capixaba: a construção da sua oitava usina de pelotização, em Tubarão,

Todos da área ambiental sabem que a Cepemar não tem independência, idoneidade ou autonomia para se manifestar com isenção sobre os projetos das poluidoras. Foi chocante a presença de seus técnicos na audiência pública em que a Vale tentou justificar a construção da usina, garantindo que a poluição do ar na Grande Vitória não vai aumentar com o funcionamento da nova usina.

Sem qualquer constrangimento, a Cepemar corrobora essa colocação da Vale e apresenta à opinião pública alegações que não se sustentam.

Mas seus técnicos são bem informados e sabem que a Vale envenena seriamente o ar da região. E o faz, impunemente, porque os órgãos oficiais não zelam pelo cumprimento de determinações legais sobre preservação ambiental, medidas preventivas ou mitigadoras dos impactos.

Ao contrário, fecham os olhos às transgressões, não só da Vale como das demais empresas inseridas no contexto dos grandes grupos industriais aqui sediados.

Se tentasse fazer nos países desenvolvidos o que faz aqui, a Vale já teria sido fechada. Usinas de pelotização, por exemplo, não podem, naqueles países, atuar a céu aberto, sujando e degradando tudo em volta. Ela seria obrigada e se instalar numa espécie de redoma, hermeticamente fechada e dotada de potentes filtros.

Só assim as modernas e avançadas civilizações aceitam que empresas como a Vale se instalem em seus territórios. Ou seja, é fundamental que esse tipo de atividade se desenvolva sem qualquer ameaça às pessoas e ao ambiente.

Aqui as emissões de gases venenosos se espalham impunemente pela atmosfera, provocando doenças e até mortes. Imaginem uma cidade como Paris, por exemplo, vivendo nas condições em que vive a Grande Vitória. Nem pensar.

E o pior no caso da Vale: além de não investir em equipamentos de proteção ao ambiente, ela ainda faz economia no consumo do combustível que alimenta suas máquinas. Usa o que aqui se convencionou chamar de "óleo baiano", um tipo de combustível que libera enxofre em grandes proporções (4% por litro).

O enxofre, inalado diuturnamente, adoece e mata. Mas custa bem mais barato que óleos combustíveis menos poluentes. Está aí um crime desta perversa parceria Vale-Cepemar - a morte jogada no ar a preço vil.