Manejo ou tecnologia




Geraldo Hasse


De um engenheiro florestal que se assina Alvaro Garcia recebi mensagem comentando o artigo da última coluna (Calípio Sem Estresse), "não porque redime ou penaliza o eucalipto, mas porque toca em um assunto que deveria permear a discussão: o manejo correto do solo".

Transcrevo o parágrafo pertinente ao assunto, o eucalipto: "Se não fizer corretamente, pode ser com jequitibá, aroeira, café, o que for, haverá danos ambientais e provavelmente será fadado ao fracasso. No entanto, como explicar plantios comerciais há mais de 30-40 anos na mesma propriedade e com produtividades rentáveis? Somente pelo manejo correto".

Além disso, opina o leitor: "E também há de se desmistificar a história da monocultura. Todas as plantas cultivadas no país são monoculturas. É só passear pelo interior do ES. Plantios de mamão, pastagens, café, morango na serra, maracujá em Linhares, alho em S.M. do Jetibá, e por aí se vai. Plantar em monocultura não significa necessariamente um desastre. Só se for mal feito, sem cuidados florestais e agronômicos. E aí, novamente, não importa a espécie".

Manifestação tão razoável traz à lembrança a figura de José Lutzenberger, que além de agrônomo era líder do movimento ecológico. Ele não tinha preconceitos contra as árvores, encantava-se por igual com um cacto ou uma bromélia, mesmo sabendo que não se come esta nem aquele. Achava que o eucalipto era uma cultura agrícola igual a tantas que o homem desenvolveu na face da Terra.

A trajetória profissional de Lutz vem ao caso. Na década de 70 ele lutou para fecharem a fábrica de celulose Borregaard, que poluía o ar e a água de Porto Alegre. Mais tarde, quando a empresa passou à direção da Klabin, aceitou fazer o paisagismo de sua fachada. Do jardim passou aos fundos, mostrando que se podia aproveitar os resíduos do tratamento de efluentes, uma borra rica em humus. Literalmente pôs a mão na massa. Do radicalismo verbal passou à ação radical, sem renunciar ao direito de criticar. Criticava sobretudo o emprego abusivo e inconseqüente do que se convencionou chamar de tecnologia agrícola.

Embora tenha razoável vivência rural e seja bastante calejado na prática da reportagem agrícola, somente agora dou-me conta de que a palavra "manejo" é a preferida dos técnicos que trabalham em consonância com a natureza. Outros, que trabalham na terra seguindo os manuais das escolas agrícolas convencionais - isto é, mecanicistas -, empregam habitualmente a palavra "tecnologia", na suposição de que a técnica possa ser aplicada sem levar em consideração o ecossistema.

Aparentemente, essas duas palavras significam a mesma coisa, mas revelam posturas bastante diferenciadas. A distância entre uma e outra pode ser a mesma que separa a riqueza da biodiversidade da fragilidade da monocultura. Confesso que ultimamente a palavra agronegócio me dá calafrios. Ela vem carregada de venenos e pressupõe uma urgência catastrófica. Por que tanta pressa, senhores do Mercado?

Isso que chamamos agricultura tem 10 mil anos, mas as origens do que se entende por manejo estão algumas dezenas de milhares de anos atrás, quando o pós-homem das cavernas se tornou pastor e percebeu que o cocô de alguns animais ajudava no crescimento das plantas, que as sementes tinham época ideal para germinar, que uns vegetais iam melhor na terra molhada e outros se davam bem em solos mais secos, e assim por diante.

Tudo ia maravilhosamente bem até que, na ânsia de atender os mercados (mais do que a sobrevivência, isso dá dinheiro e poder), os homens se tornaram escravos de esquemas tecnológicos, comerciais e financeiros perversos. Perderam não apenas o bom senso na observação da natureza; alienaram também a capacidade de usar inteligentemente os conhecimentos agrícolas acumulados ao longo de milhares de anos.

Que pena.

ghasse@th.com.br