Em benefício da verdade, é bom que se diga, logo de saída, que hoje já não se pode imputar apenas ao povo norte-americano o fato de já não saber onde está o limite entre a realidade e a fantasia que Roliúde criou. Tudo lá é xoubiz? Ora, aqui também. Querem ver?
Tempos atrás, fiquei admirado ao ver que uma pessoa, portadora de deficiência física, que esmolava perto do acesso à Terceira Ponte, em Vitória, tinha duas auxiliares que estendiam diante dos carros, quando o sinal fechava, uma faixa profissionalmente confeccionada. Nela, a pessoa explicava sua dificuldade, pedia ajuda e agradecia pela atenção. Enquanto a faixa era estendida, a pessoa se deslocava em sua cadeira de rodas, por entre os veículos, de mão estendida. Admirei o profissionalismo da pessoa, na falta de querer emitir juízo de valor.
Agora, o espetáculo acontece nos ônibus do sistema Transcol. Lá pras tantas, entra um rapaz que vende paçoca. Seu discurso começa com um "bom dia, pessoal". Pois acreditem, cara leitora e caro leitor, que esse "bom dia, pessoal" é repetido até que os passageiros do ônibus, já de saco cheio, respondam, como se fosse um programa de auditório.
E aí o rapaz explica o que vende, diz o preço, explica que se trata de uma promoção, e que está ali vendendo paçoca quando poderia estar assaltando pessoas. Se não consegue vender, apela para uma segunda tática, a velha "compra pra me ajudar". A partir daquele momento, o profissional de vendas transforma-se em pedinte. Pano rápido.
Pois agora temos, no espaço, um cosmonauta brasileiro que passa uma temporada na estação espacial internacional. Bandeira do Brasil (Brazil-il-il!), link direto com a Globo, e tome falação para explicar o caríssimo passeio bancado pela burrinha da Viúva. "Esta experiência será de grande valia para o programa espacial brasileiro", diz o oficial, para milhões de brasileiros colados na telinha global.
Pegando o mote do astronauta brasileiro, esta coluna, que também tem seus momentos de utilidade pública, quer sugerir então meia dúzia de projetos para incrementar o programa espacial brasileiro, que afinal a gente é cidadão é pra dar pitaco, sugestão, meter nossa colherzinha enferrujada no negócio. Lá vão, então:
a) Nossas autoridades poderiam incluir no programa espacial brasileiro um espaço para uma reforma de ensino onde aqui no chão a mentalidade da escola mudasse de forma a deixar de produzir analfabetos funcionais, que já os temos aos milhões, muitos e muitos deles chamados de doutores, e passasse a valorizar o professorado, com especial atenção para uma visão de letramento, em vez de alfabetizadora (a diferença é que o letramento busca criar cidadãos com mentalidade crítica, em vez de simples repetidores de conceitos e modelos, diferentemente do que hoje se dá com a alfabetização).
b) O programa espacial brasileiro poderia também contemplar a redução dos espaços entre dentes, por falta dos mesmos, presentes em grande parte da população deste país de banguelas.
c) Outra medida oportuna seria profissionalizar o espaço dos políticos. Quer ser político profissional? Vá estudar ciência política, sociologia, filosofia, antropologia, língua portuguesa, economia, administração etc.
d) Menos espaço para o futebol, na vida de crianças e adolescentes, e mais horas de escola. Perderíamos a hegemonia do futebol, por certo, já que a molecada não poderia mais passar metade do dia batendo pelada, mas em alguns anos estaríamos livres dos analfabetos funcionais e dos outros. Golaço do nosso programa espacial brasileiro.
e) Também é de se desejar que haja menos espaço livre na barriga do brasileiro, o que lhe traria mais saúde, esperança, discernimento, capacidade de trabalho e perspectivas de vida.
f) Uma mesma determinação das autoridades responsáveis pelo programa espacial brasileiro poderia garantir menos espaço livre no bolso do brasileiro, tratando de criar medidas capazes de fazer o grande capital sair da especulação e investir na produção, garantindo um recheio na algibeira da tigrada que urra pelas arquibancadas.
Com medidas dessa natureza, em poucos anos certamente estaríamos numa situação tão boa que bobagens marqueteiras como esse passeio do cosmonauta brasileiro já não seriam necessárias.
Ah, você também tem sugestões para o programa espacial brasileiro?
Cartas e e-mails para a Redação.
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