Por quê a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) não emprega, em seu complexo de Tubarão (sete usinas de pelotização e porto), tecnologias comprovadamente eficazes no controle da poluição do ar das chamadas partículas sedimentáveis?
As partículas que vão se tornar sedimentos lá adiante são arrastadas pelos ventos a partir de seus depósitos de pelotas e das correias transportadoras que levam os minérios semi-industrializados para os navios. Para passar de uma correia a outra, até chegar no navio há, em alguns casos, desníveis de cerca de dois metros. Com ventos fortes, as partículas de minério arrastadas formam nuvens pretas que são levadas por quilômetros.
São toneladas e mais toneladas de pó preto que infernizam os moradores da Grande Vitória, particularmente os que estão mais próximos das usinas. Entre os muito afetados, os moradores das Ilhas do Frade e do Boi.
Nos países onde os semi-acabados da CVRD são desembarcados, o processo de retirada das pelotas não provoca poluição. Não provoca por quê? É que são usados o cercamento das áreas de desembarque com telas especiais que impedem o arrasto das partículas; há emprego na quantidade suficiente de material parafinado que envolve as pelotas, e, feito o enclausuramento de todas as áreas de transferências dos minérios nas correias transportadoras. Estes procedimentos são exigidos pelos governos, a ai deles se não as determinar: a sociedade civil é vigilante, e cobra!
Quem aponta as tecnologias disponíveis e assegura o seu uso nos países de destino das pelotas vendidas pela CVRD é o engenheiro Paulo Esteves (vide reportagem na edição desta quarta-feira - 12).
Ocorre que, no Brasil, há ausência de fiscalização e de falta de interesse dos governos Federal, Estadual e Municipal em enquadrar as poluidoras. Também falta mobilização popular capaz de exigir providências efetivas de tais empresas e dos governos.
As tecnologias que evitam a poluição não são usadas pois há, ainda, avareza das empresas, como da CVRD.
A CVRD foi enxugada e praticamente doada à iniciativa privada, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Foi vendida em 1997 por US$ 3,338 bilhões. Um nada, pelo que valia, com a agravante de, pelo processo montado pelo governo entreguista de FHC, suas ações terem parado nas mãos dos conglomerados transnacionais.
A administração agressiva da empresa permitiu lucros crescentes. Só em 2005, o lucro líquido da CVRD foi de R$ 10,4 bilhões. Lucro 61,7% superior ao de 2004, além de ser o maior já obtido pela companhia.
Todo o procedimento para conter a poluição que lança sobre os moradores da Grande Vitória custaria um nada para uma companhia assim bilionária.
Mas não: a empresa quer é continuar crescendo, pouco se lixando para a poluição que provoca. Quer, porque quer, licença ambiental para sua 8ª usina e ampliar sua capacidade de produção das usinas antigas. Nas suas sete usinas do seu complexo de Tubarão, a CVRD produziu 27,8 milhões de toneladas de pelotas de ferro em 2005. Quer produzir mais 11,5 milhões de toneladas, totalizando uma produção de 39,3 milhões de toneladas de pelotas de ferro por ano nesta região.
Têm razão os que exigem que a CVRD, antes de obter sua licença para novos projetos (se é que a região comporta, o que não parece provável), dê conta de seu passivo ambiental.
A comunidade está cansada da poluição da CVRD, que destrói a Grande Vitória há 35 anos, e responde por 20-25% dos poluentes do ar na região. A empresa polui não só com partículas sedimentáveis, mas também com emissões de carvão resultante dos desembarques de navios. Ainda por economia, usa o pior dos óleos combustíveis (o chamado óleo baiano, com alto teor de enxofre) na produção. O uso de gás natural no processo produtivo não só é mais econômico, como ambientalmente menos prejudicial.
Na degradação ambiental da Grande Vitória, a CVRD é parceira da igualmente transnacional Arcelor Brasil - CST e Belgo. As três principais empresas poluidoras da região lançam, só no ar, 264 toneladas/dia (96.360 toneladas/ano) de poluentes.
Cálculos divulgados em 2003 apontam que as doenças provocadas pelas transnacionais poluidoras (CVRD e a francesa Arcelor Brasil - CST e Belgo) exigiram o gasto de R$ 3,7 a R$ 4,4 bilhões para tratamento de saúde na Grande Vitória. Entre as doenças, cânceres, as alérgicas e respiratórias. Em 2006, com 35 anos de operação, a CVRD exigiu que a população gastasse R$ 2.275.000.000,00 para tratar as doenças provocadas pela poluição.
É hora de toda a população da Grande Vitória gritar contra a poluição da CVRD (e das outras poluidoras - a especialidade da CST é a emissão de gases deletérios ao ambiente e às pessoas), e cobrar posição dos governos, particularmente do Estado e dos municípios, na contenção deste processo.
E é hora de a CVRD colocar de lado a avareza e investir no controle da poluição!
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