Vitória (ES), edição de fim de semana
 
Lula lá, Vereza cá
'Vamos levar a eleição de
governador para o segundo turno'




(excepcionalmente, a entrevista desta semana foi feita por Renata Oliveira)


"Quem olha para fora, sonha;
quem olha para dentro, acorda."

(C. G. Jung)

Dizendo-se livre, ao adotar uma postura independente na Assembléia Legislativa, o PT acabou por lançar um candidato próprio às eleições deste ano, o deputado Cláudio Vereza. É este o nome defendido pelo partido, após uma série de discussões. Nosso entrevistado desta semana, o deputado estadual petista Carlos Casteglione, mostra-se confiante em relação ao nome escolhido. Acredita que o PT vai disputar mesmo, inclusive, o segundo turno. Tal possibilidade pode ocorrer em aliança com o PDT, que tem à frente o presidente do partido e ex-prefeito da Serra Sérgio Vidigal.

Para Casteglione, o governador não vai desistir de ser candidato à reeleição. Isso já está mais do que claro para o partido. A partir dessa questão, o deputado analisa o cenário esboçado até o momento no Estado. Também avalia as condições para o presidente Lula não subir no palanque de Paulo Hartung. O Partido dos Trablhadores estadual já conta com 30 nomes para as proporcionais, mas o deputado cachoeirense não quis arriscar-se fornecendo lista para conhecimento dos leitores de Século Diário. É só conferir.

Século Diário: - O governador Paulo Hartung parece que está deixando a decisão para a última hora. Está todo mundo sem saber o que ele exatamente vai fazer. Em tese, são três candidaturas: a dele, a de Vidigal (PDT) e a de Vereza (PT). Situação que levaria a disputa para o segundo turno. Há também um problema sobre o PT. Algumas lideranças avaliam como 'inconveniente' a candidatura do deputado Cláudio Vereza. Como o senhor analisa esse cenário?

  
Foto: Apoena
  
Carlos Casteglione: - Veja bem. Primeiro, o PT discutiu essa questão da candidatura do Cláudio Vereza numa direção estadual. Este é um projeto do partido, uma decisão de Executiva, que estamos, inclusive, levando para todo o interior do Estado do Espírito Santo para qualificar a nossa posição de ter uma candidatura própria. Essa candidatura própria se fundamenta, basicamente, em dois pontos. Primeiro, nós temos a candidatura do presidente Lula. O partido precisa estar dando respaldo ao presidente aqui no Espírito Santo. Isso porque, se nós observarmos a posição do governador Paulo Hartung em 2002, ele não se posicionou favorável ao seu candidato no primeiro turno e no segundo turno também não se posicionou claramente. Inclusive, recuou, com relação ao presidente Lula. O PT precisa garantir ao Espírito Santo o palanque do Lula. O palanque que certamente ele terá em qualquer condição ele terá aqui no Estado do Espírito Santo. Uma outra fundamentação que nós temos para a candidatura de Cláudio Vereza é exatamente a questão dos prefeitos. Nós temos hoje cinco prefeituras, vários vereadores, mandatos de deputado federal, deputado estadual, uma boa organização em termos de movimento social, movimento este que tem demonstrado posições claras, com relação principalmente às políticas sociais do governador Paulo Hartung. Então, está centrada exatamente nesses dois motivos a questão da candidatura de Cláudio Vereza. A posição interna, de alguns companheiros que não defendem que o PT possa ter uma candidatura... nós estamos em fase de discussão e de debate. Eu sou daqueles que entendem que o PT tem que ter uma candidatura porque tem toda uma construção, se recuperou e depois de Vítor Buaiz está novamente no cenário, também em condição de disputar uma vaga no governo estadual e se recolocar no cenário, disputando o cargo maior do Espírito Santo, em vista da construção toda que nós fizemos no Espírito Santo. Mas, mesmo assim, essa posição é uma posição em debate dentro do PT. Nós, com muita tranqüilidade, estamos discutindo, debatendo... Acho que a posição dos prefeitos é uma posição que tem uma preocupação com a relação institucional. Esta relação institucional é uma relação boa, até para o que os prefeitos pretendem fazer. Agora, o projeto político do partido precisa ser discutido com critério e com todo o respeito que os prefeitos estão tendo com essa candidatura. A gente não vê, assim, exposições públicas, algumas muito pontuais, mas nada explícito de nenhum dos nossos prefeitos que defenda claramente uma aliança com o governador Paulo Hartung. Estamos discutindo, estamos ponderando. A ponderação é sempre salutar, faz parte do nosso projeto de debates. No PT, a gente não impõe uma candidatura, a gente discute, debate... Estaremos realizando um grande encontro estadual com todas as lideranças, para poder também aprofundar esse debate. Eu acho que está nesse debate. Eu vejo com tranqüilidade as posições colocadas. O PT saberá no momento certo afirmar a posição de que nós temos condições de ter essa candidatura. Caso venha a acontecer de não ter, vamos discutir que posição vamos adotar. Acho que um partido político com o acúmulo que o PT tem precisa se posicionar claramente em relação a uma candidatura própria no Espírito Santo.

- Quando acabarem as convenções, quando o partido sair às ruas, o PT vai estar unido em torno de um nome?

- Com certeza. Com certeza porque eu acredito que esse será o resultado do trabalho que estamos fazendo agora, desde dezembro, quando definimos a pré-candidatura de Cláudio Vereza. Em fevereiro, lançamos oficialmente, em comemoração aos 26 anos do PT. Estamos trabalhando com nossos prefeitos, vereadores, deputados, lideranças, e a base, enfim, do PT, para que o resultado, ao definir essa candidatura, seja um resultado positivo e que o PT volte à cena estadual disputando essa posição e disputando com grandes condições. E aí eu diria: o nosso alvo principal é levar essa disputa para o segundo turno.

- E quais as chances do Vereza?

- Olha, eu diria que do deputado Vereza, pela história que ele tem, toda a sua história política, até sua história de vida, e o respeito que ele tem... primeiro, da militância do PT e, principalmente, da sociedade... nós temos chances de estar levando essa disputa para o segundo turno, com Vereza disputando as eleições de segundo turno, provavelmente com o governador Paulo Hartung, fazendo aí uma aliança com todos os partidos que já estamos conversando. São vários os partidos que estamos conversando, inclusive com o PDT, já acertando essa posição do segundo turno... Tem apoio para quem for para o segundo turno. Nós acreditamos que isso venha a acontecer. As chances são, hoje, chances possíveis. Quando a eleição for para o segundo turno, acho que o jogo se iguala. E nós vamos fazer uma campanha de segundo turno para chegar ao governo do Estado.

- Com a candidatura de Vereza o senhor acredita que a relação do governador com o presidente Lula se defina?

- Acredito que sim porque essa é também uma relação institucional. O presidente Lula respeita muito o governador e o governador também, até porque o governo do presidente Lula investiu aqui muitos recursos. Nós diríamos que o presidente tem sido o principal ponto de apoio da política, tanto do ponto de vista da macroeconomia quanto da pouca política social que tem aqui. O governo do presidente Lula foi o grande apoiador do governador. Então, eu acredito que o governador deve também apoiar o presidente Lula. Esperamos que ele faça isso. Eu só não acredito que o seu palanque seja apropriado para o presidente Lula porque no seu palanque tem PFL, PSDB, todo o grupo do Gratz que está na Assembléia e faz parte da sua base apoio. E eu, sinceramente, não consigo visualizar o presidente Lula em cima de um palanque com esse quadro que nós temos aqui. Agora, acho que, independente disso, nossa meta principal nas eleições de 2006 é reeleger o presidente Lula. O PT estará, com certeza, puxando essa responsabilidade no Espírito Santo, mas nós estaremos aceitando todos os apoios que sejam apoios condizentes com as políticas que o governo está desenvolvendo.

- O presidente Lula pode fortalecer a candidatura de Vereza e vice-versa, ou seja, a candidatura de Vereza pode fortalecer a candidatura de Lula aqui no Estado?

- Eu não tenho nenhuma dúvida que o apoio do presidente Lula a qualquer candidato, em qualquer Estado, é fundamental, em especial no Espírito Santo, pelo que o presidente Lula fez no Estado. Em termos de investimento em infra-estrutura jamais houve um presidente da República que fizesse o que Lula fez aqui no Estado, inclusive do ponto de vista do início desse governo. Foi ele que viabilizou o governo, a partir do momento em que liberou o adiantamento dos royalties do petróleo. Então, eu penso que o presidente Lula tem, aqui do povo capixaba, um grande reconhecimento. E isso, certamente, ajudará na candidatura do companheiro Vereza. O que também, da outra parte do Vereza para o Lula, é verdadeiro. Toda a população capixaba conhece o trabalho e a responsabilidade do companheiro Vereza e sabe que qualquer apoio que venha por parte do Vereza também ajuda e ajuda muito. Agora, é evidente que, eu quero sempre de repetir e frisar, o projeto do presidente Lula não está só dentro do PT, ele está buscando, inclusive, outros apoios, apoios importantes do Espírito Santo, dos nossos partidos aliados, PSB, PCdoB, o próprio PTB, o PMDB mesmo. Nós estamos trabalhando com essa responsabilidade, agora buscando separar essa questão da disputa estadual.

  
Foto: Apoena
  
- Embora a verticalização tenha sido mantida, há alguns mecanismos que podem driblá-la. O que representa isso para o cenário capixaba?

- Olha, eu acho que a verticalização, sendo mantida, vai ajudar aqui no Espírito Santo porque nós temos problemas com partidos aliados nossos, que têm problemas de fazer coligação com Lula... inclusive, não têm muita ligação no cenário nacional, mas que, mesmo assim, abre outras possibilidades no Estado para que nós tenhamos coligação. Eu penso que, para o Espírito Santo, vai ser positivo. Para o PT do Espírito Santo vai ser positiva essa questão da manutenção da verticalização, desde que nós tenhamos relações fortes com os partidos que são nossos aliados históricos. Isso certamente estará contribuindo para o fortalecimento da candidatura do Vereza, em articulação com outras candidaturas, a formação de uma boa chapa de deputado federal, deputado estadual. Tem um detalhe muito curioso e importante nesse cenário. A maioria dos partidos do nosso campo de aliança tem dificuldade de fazer aliança com os partidos maiores, tipo PSDB e PFL, aqui no Espírito Santo, que têm nomes com muita representatividade. Então, isso dificulta para cumprir, por exemplo, o objeto de fazer um deputado federal. Acho que isso é uma coisa que nós fomos discutindo, estamos conversando com os partidos aliados. É a grande chance que todos nós temos de eleger deputados federais, uma boa bancada para Brasília e também uma boa bancada de deputado estadual, fazendo uma aliança que incorpore esses partidos aí, partidos médios, que têm mais condições de trabalhar e fazer um bom número de votos. Então, estou avaliando que, para o PT do Espírito Santo e para os nossos partidos aliados, a manutenção da verticalização foi importante. Será importante em termos do resultado eleitoral.