Vitória (ES), edição de 17 de abril de 2006    
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Chão de Estrelas
"Garota da Vitrine" e a disposição em enxergar a beleza de ser comum



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


Começamos com imagens de Los Angeles vista do alto, uma imensidão de prédios e avenidas, que a escuridão da noite torna apenas uma grande redoma de pontos luminosos, de todos os tipos e cores. À imensidão impessoal deste panorama da cidade se juntam imagens do céu estrelado da Califórnia, igualmente carregado dessa energia pontual. Postas lado a lado, a luz artificial das lâmpadas urbanas e o brilho natural das estrelas acabam se fundindo numa espécie de tabuleiro infinito cuja beleza só se torna aparente quando tomado coletivamente: é preciso que cada ponto de luz daquele perca sua particularidade, seja apenas uma peça funcional no quebra-cabeça iluminado do céu e da terra, para que então possa surtir algum efeito de encantamento. Como o ditado que fala sobre as andorinhas, um poste de luz ou um astro cadente sozinhos não fazem verão. Ou será que fazem? O mundo com que todo contador de histórias tem que lidar divide com estas imagens iniciais de "Garota da Vitrine" (em cartaz no Cine Metrópolis) a mesma relação de totalidade. São bilhões de pessoas no mundo, cada uma com bilhões de experiências e histórias próprias, todas muito atraentes e interessantes quando tomadas como essa massa impalpável que chamamos de "humanidade", mas que na maioria absoluta das vezes, sendo olhadas de perto, não passam mesmo de um punhado de situações dramáticas com as quais todos nós convivemos diariamente e que a princípio as afasta daquele ideal de modelo cinematográfico, com muitas explosões e fogos de artifício, paixões loucas, grandes duelos e um final invariavelmente feliz. Portanto, nesse emaranhado geral e indistinto de pontos de luz, todos eles tão ordinários individualmente que quase forçam o contador de histórias a adicionar todos esses elementos atrativos, por que escolhemos uma história específica? Por que acompanharmos um pedaço da vida de Mirabelle Buttersfield (Claire Danes), e não a de outra pessoa qualquer? Essa escolha talvez seja a essência do trabalho de qualquer artista da narração, seja um diretor de cinema ou um escritor. Se nos prendemos a uma peça particular desse tabuleiro, se nos dispomos a partir de um céu inteiro para descobrirmos lá no meio da imensidão um ponto de luz e conseguir ver nele a beleza de uma estrela, especial em sua unicidade, é porque precisamos desse contato com o outro, é pela vontade de um narrador de se entregar a um personagem, de ajudá-lo a dividir sua vida com o mundo, com o espectador, com o leitor, e nisso, fazer com que esse personagem conheça a si mesmo de uma maneira que nunca imaginara antes.

  
Foto: Divulgação
  
No primeiro encontro entre o ricaço de meia-idade Ray Porter e Mirabelle, menina tímida e reservada que veio do Vermont, um estado frio e minúsculo do outro lado do país, para ganhar a vida na ensolarada Los Angeles, ouvimos do narrador que, no fim do jantar, a grande pergunta que a moça se fazia, depois de horas conversando com um homem bonito, inteligente, charmoso e ao mesmo tempo totalmente diferente daqueles que um dia já se interessaram por ela, a grande pergunta que a moça se fazia era: "Por que eu?". De todas as operações que o filme do diretor Anand Tucker realiza, esta narração talvez seja a mais arriscada (ao mesmo tempo em que é ela que garante um lugar para "Garota da Vitrine" no rol dos grandes filmes auto-reflexivos dos últimos anos). Steve Martin, ao mesmo tempo em que atua como Ray Porter, vivendo esta história de amor, é também o narrador onisciente dela. O grande conflito do filme residirá justamente nesta dualidade de Martin: enquanto narrador, enquanto contador de história, se entrega totalmente aos sabores da personalidade de Mirabelle, se envolve em sua vida, em seus dramas, mas como o personagem da vida real que vai dividir com ela esta vida, estes dramas, que viverá com a moça um relacionamento, Ray Porter nunca consegue realmente se entregar. Steve Martin, que escreveu o roteiro do filme a partir de um romance seu, parece reforçar com este dispositivo aquela idéia inicial de que, num mundo cada vez mais abarrotado de vidas loucas para virarem filmes, aquilo que deve mover qualquer um (não somente um artista ou um espectador, mas nós mesmos, seres humanos felizmente dependentes do contato com outros), aquilo que nos faz querer compartilhar uma existência - real, fictícia - tem que ser, acima de tudo, a disposição à entrega, a decisão de encarar um personagem de peito aberto e coração tranqüilo, e aí então receber deste personagem esta mesma abertura.

Não há mais dramaticidade tipicamente cinematográfica que se sustente como verdade nos dias de hoje. Tudo soa muito falso, os conflitos deixam aparente sua fabricação, os amores e as dores não são mais que uns risos forçados e umas lágrimas de colírio. "Garota da Vitrine" sabe muito bem disso, e se arrisca mais uma vez ao tornar protagonistas pessoas que não tem rigorosamente nada de extraordinário. É justamente a simplicidade de suas histórias, o caráter comum de seus dramas, que tornará tudo tão encantador. Se o narrador pela palavra (Ray Porter/Steve Martin) precisa se devotar àquilo que narra, também o narrador pela imagem (o diretor Anand Tucker) deve se expor a esta relação. Não é uma questão de embelezar o ordinário e transformá-lo em extraordinário: já há beleza nestas existências comum, e cabe ao cineasta fazê-las notável, olhar uma Mirabelle, um Ray ou um Jeremy (o cara largadão que é o último vértice do triângulo amoroso do filme) e perceber o desenho que uma sombra faz num corpo nu, a graça do enquadramento em close de um rosto mergulhado em ingenuidade e dúvida, a dança embaraçada de uma franja de cabelo que insiste em cair nos olhos. Com uma relação tão aberta, é possível até mesmo aprofundar-se um pouco mais, e começar a reconhecer complexidade naquilo que aparentemente era muito simples. Mirabelle toma antidepressivos, tem uma relação pouco próxima com o pai marcado pelo Vietnã e a mãe típica dona do lar; Ray se esquiva de qualquer aproximação afetiva, talvez por medo da diferença de idade, talvez por alguma marca do passado, Jeremy se apaixona de imediato por Mirabelle, e mesmo depois de muitos meses, ainda insiste no sentimento por uma garota com quem saiu apenas uma vez na vida. Olhando para dentro destes personagens é possível descobrir um mundo de significações e possibilidades que "Garota da Vitrine" faz questão de não alardear. Mas como, afinal de contas, um filme tão parceiro de seus protagonistas, poderia querer explicá-los friamente? Anand Tucker, a câmera brilhante do fotógrafo Peter Suschitzky, o texto de Steve Martin, as atuações dele próprio, de Claire Danes e Jason Schwartzman, tudo se conjuga para simplesmente estar lá, ao lado de Mirabelle, Ray e Jeremy, e fazer dessa companhia a própria matéria-prima do filme. "A vida é assim", diz o narrador em sua última intervenção: perdemos, ganhamos, amamos ou não, distribuímos sorrisos ou nos escondemos num choro, e cada vez mais o grande cinema é aquele que sabe olhar aquilo que passa imperceptível pelos olhos distraídos. "Garota da Vitrine", sem dúvida, é pequeno, uma estrela sozinha. E talvez, justamente por isso, tenha o tamanho de uma constelação inteira.

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