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Foto: Divulgação
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| A sede do Itaú Cultural em São Paulo
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É um pouco possível que o leitor, a leitora, já tenham ouvido falar de nós, do Cine Falcatrua. Ou mesmo freqüentado alguma de nossas sessões de Cinema. Mundo pequeno, quase tudo é possível, caderno cultural, jornal capixaba *on-line*... a gente pode se conhecer. Mas também pode ser que não, e aí a gente se apresenta. Somos o Cine Falcatrua, surgimos de um projeto de extensão da UFES em 2004, e fazemos cinema de tudo quanto é jeito.
Principalmente do jeito mais fácil: pegamos o filme (com o realizador, na Internet, no camelô), e com tecnologia digital caseira e maravilhosa, projetamos e chamamos as pessoas. As sessões são gratuitas, a montagem do equipamento é feita na hora, e costuma dar tão certo que nos enche de idéias para novos formatos de exibição e expectação dos filmes. Várias dessas idéias a gente já pôs em prática por aí, como um festival de "vídeos de
Internet" no meio da rua de um bar, a exibição de um documentário em pleno baile funk e um festival em que filmes são editados ao vivo. Esse último foi o *Festival CortaCurtas* em São Paulo, agora em março, e nos proporcionou uma experiência um tanto nova. E é desta novidade - novidade pra nós, bem dito, jovens e bobos - que este relato se trata. E de algumas de suas conseqüências.
Acontece que fomos selecionados para o programa *Rumos Artes Visuais 2005/2006*, do Itaú Cultural. O instituto se propõe, através do programa, um certo mapeamento da produção emergente das artes visuais em todo o Brasil (o *Rumos* também tem edições em Música, Dança, e Cinema e Vídeo). Os 78 contemplados expuseram suas obras na exposição PARADOXOS BRASIL, no edifício do Itaú Cultural, em São Paulo (que dura até maio, vai lá), e seguirão expondo em outras capitais do país. Inscrevemos um festival de cinema, abrindo um edital dentro do edital: a idéia era receber obras as mais variadas, sem pré-seleção, compondo um acervo a ser usado pela estrela do festival: o projecionista. Ou o programador, ou o editor, ou a equipe técnica inteira. Quem projeta, projeta o que quiser, na ordem que quiser, na duração que quiser, intercalando o que quiser, a partir das opções do
acervo.
E houve quem se inscrevesse: recebemos 265 obras, do Brasil e de mais sete países; chegou de tudo: videoarte, registros de festa de aniversário, filmes interativos e até um curta de Jorge Furtado, mais antiguinho. Nossa obra contava com vários artistas. Armamos tudo o que foi necessário, arrumamos nossas coisas e partimos pra cidade enorme.
Tivemos de chegar uma semana e meia antes da abertura da exposição, fomos os
primeiros artistas. Tudo era novidade: pela primeira vez participávamos de um acontecimento de artes visuais (as outrora conhecidas artes plásticas) ao invés de cinema ou cultura digital "livre" (ou seja, outras patotas); pela primeira vez estivemos tão íntimos do funcionamento de uma das maiores instituições culturais do país - trabalhando todos os dias em ilhas de edição ao lado de outros funcionários; nunca tivemos tão bons equipamentos à
mão; e nunca tínhamos sido tão expostos desde que duas distribuidoras e uma associação de direitos autorais abriram um processo contra nós. Afinal, fomos selecionados como um coletivo de artistas - os únicos do Espírito Santo, situação delicada - e citados nome a nome. Não um projeto de extensão, uma associação sem fins lucrativos, um *fotolog* sem rosto.
O Festival CortaCurtas ficou marcado para a quinta, 23 de março, dois dias após abertura da exposição. Assim, durante a festa de abertura marcamos nossa presença com uma projeção livre na fachada do prédio, em plena Avenida Paulista. Foi puramente imagem, som e alegria: jogamos videogame ao som de funkarioca, projetamos Chaves, programas infantis de rede pública, lançamentos hollywoodianos de camelô da 25 de Março, entre outras coisas.
Bastante divertido.
Noves fora, trabalhamos muito, a ponto de incomodar um pouco os outros funcionários do instituto, já que éramos os únicos a ter acesso durante tanto tempo a espaços mais restritos. Ainda assim, fizemos alguns bons amigos, e fomos bastante paparicados - imagino o mesmo para os demais artistas - até mesmo pelo simples fato de termos sido tão bem acolhidos com a nossa idéia de obra expandida e aos pedaços. E chega, então, o dia da
abertura do Festival.
Corre tudo às mil maravilhas, as edições dão certo, os equipamentos são ótimos, as intervenções do projecionista são boas, às vezes bastante engraçadas, às vezes demasiado longas, algumas coisas especialmente belas; trocas de faixas de áudio, a iluminação e até mesmo as cortinas do cinema estiveram sob o controle da estrela da noite. No entanto, a sala tão grande estava um bocado vazia (nem mesmo as simpáticas curadoras estavam lá),
e aí percebemos uma das nossas maiores falhas: a divulgação do evento.
Deixamos por conta do Itaú a divulgação, como tínhamos deixado vários outros aspectos. Pela facilidade com que se consegue as coisas na instituição, pelas relações do instituto com a cidade, parecia o mais sensato. Cartazes seriam deixados nos metrôs, *folders *foram impressos, essas coisas. Mas talvez porque São Paulo seja uma cidade de dinâmica muito diferente, certamente pelos grandes outros eventos que se iniciavam no mesmo dia
(como a famosa mostra de documentários *É Tudo Verdade*), e consideravelmente
pela falta de entendimento da produção de que uma divulgação maciça fazia parte da concepção geral da obra. O que serviu de lição, também, para nós, a respeito de como nós funcionamos. A respeito de que gambiarras de meninos podem ser mais eficientes às vezes (é, nem sempre) do que poderosas relações diretas institucionais.
Além de todas as questões suscitadas pela vivência com um organismo tão saudável à base de renúncia fiscal, foi interessante observar a postura dos realizadores das obras com o nosso festivalzinho. O projecionista enlouquecera com a quantidade de e-mails perguntando "quando é que meu filme vai passar, pra eu chamar a galera". Quase ninguém lera a proposta, o regulamento do CortaCurtas. Inclusive, entre os "parabéns, meninos!" dos poucos que nos assistiram, recebemos um e-mail muito magoado de um cineasta, que realmente não entendeu o que acontecera. Acusou-nos de vendidos, de privilegiar filmes mais subsidiados (ele se enganou com uma edição de créditos), de deixar incólume um filme feito por nós mesmos (!!!) - falava do *Saudosa*, que não saiu ileso, e que é de outro colunista cá do jornal; a gente não faz filmes - e ainda quis de volta a mídia do seu filme. Depois a gente se entendeu. Mas é realmente assustadora a contradição que vive o
artista de cinema em países pouco fartos como o nosso: tem um alto grau de exigência, já que fazer filme sempre foi o que há de mais custoso, vive de projetos muito bem elaborados, circula o ano inteiro em festivais, mas a restrição de seus espaços é tão grande que o faz se sujeitar a qualquer coisa. O cineasta já se acostumou com isso de tal forma que nem sequer se preocupa em participar de um festival (além de assistir seu próprio filme),ou mesmo entender do que se trata, como foi caso majoritário no CortaCurtas. São impressionantes os vícios que carregamos conosco de uma época que não existe mais. Como usamos nossos computadores com uma cabecinha tão analógica, por exemplo. Como os profissionais de cinema, no caso, parecem não ter entendido ainda os graus de liberdade a que já se chega em nosso tempo, em termos de produção, difusão, fruição, exibição, educação estética.
Voltamos de São Paulo mais certos do que a gente quer. E de volta, no avião, fiquei pensando um monte de coisas na janelinha. Janelinha de avião é muito bonito. Cinema é, realmente, a maior diversão.
*Gilbertinho é diretor-presidente do Cine Falcatrua.
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