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Foto: Divulgação
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| O escritor retratado por Gustave Courbet, em 1855
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Conheci a obra de Baudelaire quando namorava com um filósofo e poeta, o paraibano Abraão Santana. Autor de "Mulãria da Macambária", Abraão gostava de discorrer horas e horas sobre seus poetas e pensadores preferidos. Um deles, Charles Baudelaire. Daí, com isso, eu não sabia se me apaixonava por Abraão, por Baudelaire ou por Mulãria.
A doce confusão nos meus neurônios rendeu uma boa porção de confabulações sobre um dos gênios da Poesia. "Esta manhã ainda me maravilha a imagem viva e distante da terrível paisagem jamais contemplada por olhos mortais...", disse o sábio poeta. Triste, por vezes sombrio, por vezes se fazendo do mais marginalizado dos mortais, Charles não viveu num mar de lama. Não. Nada disso. Foi bem educado, tornando-se um dos maiores críticos de arte da sua geração.
Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris, em 1821. Faleceu na mesma cidade, em 1867. Jovem? Ora, jovialidade, para ele, era sinônimo de alucinação poética. Dentro, claro, dos mesmos limites impostos numa de suas obras mais proclamadas, "Les Fleurs du Mal" ou "As Flores do Mal" (1857). A segunda edição apareceu em 1861, com trinta e cinco poemas novos.
E o que seria o mal para Baudelaire? Para a sua geração simbolista, era a própria rede de signos, os quais, rítmicos por natureza, aclamavam o seu oposto, o bem. Isto depois de o poeta ter se perdido na esbórnia, nas drogas, nas paixões por prostitutas e nas desventuras do consumismo que se anunciava.
Presente bilíngüe
A ser relançado pela editora Record, na coleção Grandes Traduções, um presente bilíngüe de 288 páginas: "Os Pequenos Grandes Poemas em Prosa de Baudelaire", com prefácio assinado por Ivo Barroso. "Enivrez-vous" ("Embebedai-vos"), publicado em 1868, é um dos ápices dessa admiração conjunta.
A tradução de Gilson Maurity promete desmistificar a figura do poeta maldito, em cuja fonte lambuzaram-se Rimbaud, Lautréamont, Verlaine e Mallarmé. Na prosa, em especial, a herança das catacumbas de Edgar Allan Poe. Este, um dos favoritos.
Em 1852, Baudelaire publicou seu primeiro ensaio sobre o escritor norte-americano, cuja obra havia conhecido em 1847 e começou a traduzi-la para o francês anos depois. Entre 1856 e 1865 publicou cinco volumes de traduções de Poe.
No volume da coleção Grandes Traduções para "Pequenos Grandes Poemas em Prosa", o leitor encontrará um primoroso e, como sempre, maldito Baudelaire. Poeta que, em 1847, publicou "Fanfarlo", espécie de obra autobiográfica. No ano seguinte, após ter negado ao padrasto seguir carreira militar, envolveu-se politicamente com a publicação de alguns jornais radicais de protesto.
A ala de Baudelaire questionava, sobretudo, o falso moralismo das tradições francesas. Seu radicalismo rendeu críticas e elogios, ao mesmo tempo, de nomes como Victor Hugo ou Gustave Flaubert. Para questionar ainda mais ou mostrar-se indignado com a hipocrisia, publicou em 1860 "Paraísos Artificiais: Ópio e Haxixe", taxada de especulativa e confessional. As plantas alucinógenas teriam inspirado, bem anteriormente, "Confissões de um Comedor de Ópio" (1822), de Thomas De Quincey. O maldito poeta sabia que suas flores não morreriam.
Confira, abaixo, o poema Embebedai-vos
Embebedai-vos
É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a
única questão. Para não sentirem o fardo horrível
do Tempo que verga e inclina para a terra, é
preciso que se embriaguem sem descanso.
Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.
E se, porventura, nos degraus de um palácio,
sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna
do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer
quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à
estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a
tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta,
a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento,
a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão:
"É hora de embriagar-se! Para não serem os
escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se;
embriaguem-se sem descanso". Com vinho,
poesia ou virtude, a escolher.
In: "As Flores do Mal"
Saiba mais!
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