Vitória (ES), edição de 17 de abril de 2006    
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Teatro e Comunicação no palco da Prainha



Cristina Moura




  
Foto: Divulgação
  
Cena do Auto Frei Pedro Palácios
Quando o médico naturalista Marco Ortiz me falou sobre os ensaios, compreendi. Ele queria que eu falasse para o elenco sobre a importância do silêncio. Para os comunicólogos, o silêncio é uma das armas mais atraentes. Parece um paradoxo, mas não é o que acontece no mundo simbólico.

Para chegar ao elenco do "Auto de Frei Pedro Palácios" eu sabia que o silêncio, sem ser precedido de alguns temas, não teria sentido. Fui convidada por Marco, diretor do grupo Sol da Terra, de Vitória. O grupo não envolve somente teatro, mas música, dança, medicina natural, homeopatia, yoga e um sem-número de outras áreas que se completam.

Numa segunda-feira, às 19 horas, noite em que aconteceria o primeiro ensaio geral após a seleção de atores, fui até a Prainha, em Vila Velha. Fiquei deslumbrada, inicialmente, com a energia do elenco. Jovens e veteranos atores numa simbiose teatral, com o objetivo de encantar e contar um pouco da história da colonização do Espírito Santo.

Dissabores e viagens

Éramos quase oitenta pessoas. Fizemos um grande círculo, nas proximidades do Batalhão do Exército. Lugar tão próximo também da gruta, na qual morou Frei Pedro. Pensei em como abordar o tema da palestra "O Teatro e a Comunicação Social", duas situações indissociáveis.

Comecei contando as alegrias e os dissabores da minha vida teatral, antes de ser jornalista. Inicialmente, a minha invenção de fazer teatro na sala ou no alpendre da minha casa, contra a vontade dos meus pais. Mudei o foco e logo comecei um programa de rádio, fictício, claro, o "Show da Alegria". Tínhamos até uma música nossa. O programa só acabou porque uma das tripulantes da nave, Meire, acabou embarcando noutra tripulação, a divina.

Quando eu tinha meus 11 anos de idade, cursando a 6ª série, aconteceu um concurso na Escola Nossa Senhora do Carmo. Para o Dia das Mães, seria premiada a melhor apresentação. Propus a professora de Inglês, Inês Palmeira, fazer uma peça de algum episódio do Sítio do Picapau Amarelo. Ela me olhou, rindo, e disse que Monteiro Lobato era algo muito ultrapassado. Eu respondi, na lata: "E a senhora só sabe ensinar Inglês, mais nada." Ela me chamou de atrevida, mas no fundo parecia gostar de mim.

Tudo bem. Resolvi engolir a sacada e fiz uma transposição da realidade mexicana para a realidade brasileira, nordestina, paraibana e cajazeirense. Escrevi um episódio do Chaves para que o elenco, que brigava mais que cão e gato, pudesse encenar. Fomos premiados. Fizemos sucesso. Apresentamos depois, noutra data, e em outro colégio, o Diocesano. Meu papel, além de dirigir, era o de Chiquinha. Não tenho mais condições emocionais de imitá-la. Poupem-me.

Múltiplos enganos

Deixei que o teatro silenciasse um pouco. Comecei a ler tudo o que eu podia, não somente no gênero, mas em outros da Literatura. Quis montar Shakespeare, só que a turma da escola estava hibernando mais do que minha idéia. Não pensava muito nisso e achava que ler Teatro não era uma das tarefas mais ricas. O ser humano tem o direito de se enganar, não?

Minha mãe dizia que não queria que eu seguisse a carreira teatral. Decidi escutá-la. Bem, mas ao começar o curso de Comunicação, percebi que, em algum momento, minha paixão pelo Teatro eclodiria. Pois, bem. O professor de Filosofia, Tadeu Borges, deixou a turma à vontade para o trabalho final. Eu e Kilma Farias, colega que já era atriz em outros lugares, resolvemos encenar algo ligado a Parmênides. Ela me entregou a responsabilidade de construir o texto. Fiz num piscar de olhos, mas tendo o cuidado para manter um silêncio no espetáculo.

"O Ser e o Não-Ser" era o título. Nosso figurino, sacas de açúcar e os cabelos trançados. Pasta d'água na cara. No centro do palco, uma vela. Em algum momento, nossa metamorfose dialética, justamente quando o ser vira não-ser e vice-versa, para que a história comece de novo. Ganhamos nota máxima e um bom pontapé para apresentarmos no Festival de Artes da UFPB, no Centro de Educação Artística.

Tentei participar de um espetáculo como ponta, "O Embrião", de Othon Berquó. Não se concretizou, infelizmente. Deixei a vontade guardada e voltei à minha cidade natal. Por lá, apresentei a canção "Juventude" com a banda de rock Apocalipse. Foi legal, mas ainda não era a minha praia estilística. Eu queria a palavra escrita.

Mundo diário

Ao me dedicar a essa área do Jornalismo, comecei a perceber que o teatro cria um mundo diariamente. Que os personagens estão aí, às caras, todos os dias, todas as horas. Disse isso ao pessoal do Auto de Frei Pedro, lembrando que meu desejo de escrever para teatro se concretizou há pouco tempo. Escrevi "O Sonho de Tereza Doida", já publicado na edição 38 da revista paraibana Oba!, editado e impresso pela Rápida (2005).

O texto será montado pela Companhia Brenda de Teatro, de Brasília. Fiquei aos pulos quando meu primo, o arte-educador, ator e dançarino Marx Lamare, resolveu me convidar.


 

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