Em algum momento do século passado na austera Inglaterra, jovens inquietos começaram a se agrupar em torno de um interesse comum, a música. Inconformados com as rígidas normas sociais que os cerceavam, seu som barulhento era uma forma de rebelião, um jeito divertido de extravasar sua angústia interior.
Alguns amigos se reuniam na garagem ou na sala de suas casas, arranjavam empregos nas férias para comprar instrumentos, e não queriam mais do que dar seu recado e se divertir. Mas o movimento cresceu e deixou a área doméstica, e em pouco tempo estava moldando o comportamento de toda uma geração.
Assim surgiram as bandas, de rock, de new wave, de hip-hop, e que outros nomes e ritmos inventaram. Para muitos, a música e seus exóticos instrumentos logo deixaram de ser simples diversão de fim de semana para se tornar um milionário meio de vida. A nova moda encheu o ar, ganhou as rádios e criou a MTV.
Dos pubs ingleses elas se espalharam pelo mundo, muitas ficaram famosas, mas com a mesma facilidade com que se formavam, elas se dissolviam. Algumas deixaram seus nomes eternamente registrados na história da música, muitas caíram em total ostracismo, algumas poucas ainda andam tocando por aí.
Lembro a primeira notícia que li sobre os Beatles, uma reportagem na nossa revista O Cruzeiro com o título, "Uma Bofetada na Fleuma Inglesa." Na verdade, não apenas os Beatles, mas as bandas que os seguiram, foram uma bofetada num estilo de vida prestes a ruir, abalado pelos movimentos sociais e políticos como a Guerra do Vietnã, os hippies, o anti-racismo americano, a pílula e a liberação sexual, a emancipação feminina, os gays.
O mundo nunca mais foi o mesmo. Talvez esteja misturando as coisas, ou pondo o carro na frente dos bois. Mas é verdade que as bandas de jovens cabeludos e inconformados, com sua música estridente e suas roupas ridículas, podem ser incluídas nos grandes movimentos sociais que abalaram o mundo a partir dos anos sessenta.
Foi a liberação dos jovens, até então uma turma submissa e sem voz, cujo principal credo era obedecer - aos pais, aos professores, ao clero, ou qualquer um com mais de trinta.
Mas os mitos que toda a juventude idolatrava e cujas músicas repetiam, enquanto entoavam seus bits em perfeita sintonia, na vida real se odiavam e viviam brigando entre si.
Quase todas começaram e acabaram do mesmo jeito. Seus integrantes um dia cansaram de tudo e se dispersaram sem dizer adeus. Muita droga, muita rivalidade, mas principalmente a exploração das gravadoras e a eterna vigilância do público, tornaram sua doce vida de fama e fortuna um inferno.
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