Vitória (ES), edição de 17 de abril de 2006    
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Os fantasmas teatrais



Cristina Moura




  
Foto: Bernardo Coutinho
  
"Por favor, licença por favor"
Ao chegar em Vitória, deparei-me com pomposos morros, planícies banhadas pelo mar, constelações outras. Eu sabia que estava na terra do congo e imaginava que o movimento cultural seria imenso. Tal grande quanto a tradição do congo. Assustei-me com a quantidade de teatros.

Nossa!, pensei, deve acontecer espetáculo todo fim de semana. Minha paixão pelo teatro já era antiga, enrustida, mal resolvida. Estou aqui a ouvir "Enya Collection", um ensaio lindo da Tailesen Orchestra. E estou, também, a ensaiar sobre o que encontrei.

Estava acanhada. Era o Espírito Santo. Pensei, na terra de Rubem Braga. Terra de Carlinhos Oliveira, amigo de Clarice Lispector. E o que pensar de Sérgio Sampaio e, nas circunstâncias mais peculiares, de Roberto Carlos? O rei? Não sei.

Andava eu a pensar sobre os teatros da capital, a Vitória tão vitoriosa nos tempos de outrora, ao despontar o canhão da civilização. Tomei emprestado esse furor de Castro Alves, que de capixaba não tem sangue, mas parece haver se esmaecido de tanto dançar congo. Os abolicionistas e inconfidentes, todos, numa só dança, pela liberdade.

O Teatro Carlos Gomes, com sua suntuosidade histórica, reserva-se a poucos lugares para grandes espetáculos. Não comporta grandes orquestras. Suas fileiras de poltronas não condizem com a má educação do século XXI. Difícil pedir licença. Difícil pedir por favor. Difícil agradecer.

Urbanóide

Nessa poética não lírica da pós-modernidade, me pus a pensar. Ora, o que mais eu poderia fazer numa tarde nublada de domingo? Pensei no Carmélia, bom de estrutura interna, mas não de localidade urbana. À noite, todos os gatos de Mário Cypreste e Santo Antônio são pardos. E o velho todo cuidado é pouco funciona, ainda mais se estivermos lembrando o pancadão do clube da região. Daí, o ditado seria outro: a periferia é a última que morre.

Gente, na Ilha de Monte belo, próximo ao terminal Dom Bosco, cruzamento com o Forte São João e lá na frente a Ilha de Santa Maria e Bento Ferreira... estou arfando. Há o Edith Bulhões, teatro que gosta de viver fechado. Quando cheguei, há dois anos, fechado. Abriu para o Festival Nacional de Teatro de Vitória. É nacional e é de Vitória.

  
Foto: Rodrigo Melo
  
A solidão impera no Edith Bulhões
Bem, o Bulhões abriu para poucos espetáculos participantes, para pouco público e para, talvez, um futuro incerto. A Prefeitura de Vitória achou de construir uma enorme galeria para abrigar os dejetos que se juntam à maré cheia. Qualquer rato faz a festa. Daí, uma das bocarras da galeria está ao lado da calçada do Bulhões.

Lembrei também do Teatro da Ufes. Ótimo para cerimônias de colação de grau e alguns poucos shows com artistas respeitados. Para espetáculos de Teatro e Dança, não vejo muita simpatia. Lembrei do Teatro Galpão. Todos dizem, um horror no verão. Os ventiladores querem ser personagens da peça. Ninguém agüenta.

O Cine-teatro Glória, vamos deixá-lo para shows patrocinados por grandes redes de comunicação. Ou, quem sabe, para o Vitória Cine Vídeo. E teatro? Ai, como torci para que Carlinhos Oliveira, já a anos-luz de todos, voltasse no tempo para me soprar no ouvido uma crônica. Ou torta ou aprumada, veio esta. Estou devendo uma visita ao teatro dos Campanelli. Quem sabe, terei mais o que contar na próxima edição.


 

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