Já está mais do que provado que a Política é realmente como as nuvens, que mudam de lugar e de formato a toda hora. Por isto, fazer prognósticos em política é uma tarefa complicada e quase impossível, ainda mais com muita antecedência.
Mesmo assim, arrisco-me hoje a dizer que a Política brasileira caminha para, em 2007, reeditar a política dos governadores da República Velha do Século XX. Em outro contexto, com outro conteúdo, outro formato. Mas, ainda assim, política de governadores. Pelo menos no sentido da importância do regionalismo e das lideranças regionais na construção das futuras alianças nacionais e na futura operação do executivo federal e do congresso nacional.
Hoje, neste momento, a política nacional é, literalmente, uma espécie de materialização da máxima de Hobbes, a da guerra-de-todos-contra-todos. Há uma polarização exacerbada que não deixa espaços para a produção do consenso e, portanto, para a operação do executivo federal e do Congresso Nacional. De tal forma que o país está chegando a ser governado por Medidas Provisórias, como declarou o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).
Foi-se embora, sabe-se lá até quando, a Grande Política. Aquela Política dos Grandes Líderes enraizados em partidos e/ou em segmentos da sociedade. Que, por serem enraizados e terem legitimidade, têm força política e credibilidade para a negociação política, para a articulação e agregação de propostas e interesses que vão resultar em políticas públicas. A Política que resolve os conflitos pela via pacífica da negociação, e não pela guerra simbólica que destrói o adversário e dinamita as pontes. Exagero? Não sei não...
No lugar disto, temos hoje um salve-se quem puder ao vivo e a cores, todos os dias. Bombardeios sem tréguas e sem fins, que acabam resvalando para a Pequena Política, para o clientelismo e, o que é pior, para a paralisia do congresso e a turbulência administrativa no executivo federal. Perdem todos com isto. Perdemos todos. Exagero? Não sei não...
Enquanto isto, na sociedade, germina uma espécie de "espírito de Crash", o filme recém premiado em Hollywood. É o espírito do preconceito generalizado, do rancor imanente, do individualismo extremado. Caldos de cultura da anomia social, da descrença total na Política, da desagregação do tecido social. Exagero? Não sei não...
Não sabemos ainda onde vai dar tudo isto. Mas já sabemos pelo menos duas coisas. Primeiro, que o próximo presidente, seja lá quem for, dificilmente vai ter maioria no Congresso. Muito pelo contrário. Segundo, que o país pode correr o risco de ter uma agenda eleitoral centrada apenas na propensão a guerrear, e não na discussão da agenda do país. Muito ruim.
Diante deste quadro, é provável que o eleitorado possa vir a prestar mais atenção nas disputas pelas governadorias dos estados, do que na disputa presidencial e nas disputas para o Congresso Nacional. Com a possibilidade de prevalência de altos índices de abstenção e de votos nulos e brancos. Talvez até altos demais.
Sendo esta possibilidade, pode ser que os eleitores venham a regionalizar as suas razões de voto, deixando em segundo plano a disputa presidencial e as eleições para deputados federais.
Assim, tanto os candidatos à presidência vão precisar, mais do que nunca, de palanques regionais e boas alianças regionais, quanto os candidatos a deputados federais vão procurar nos candidatos a governador boas âncoras políticas. É uma possibilidade.
O que poderá emergir das eleições de 2006, então, será um Congresso ainda mais polarizado e fragmentado, a despeito da cláusula de barreira, ao lado de governadores fortes e com alto grau de legitimidade. O que levará o próximo presidente da República para os braços dos governadores.
A perspectiva de construção da governança e da governabilidade seria, então, a costura de uma verdadeiro governo de coalizão, com um forte componente regional na sua formação. Não só no sentido de que a eleição, e a formação do governo, têm que passar por Minas, como alerta com sabedoria o governador Aécio Neves. Mas, também, no sentido de que vão passar pelo norte e pelo nordeste, pelo menos. E que vão, portanto, passar menos por São Paulo. No sentido simbólico - a chamada "despaulistização" das eleições. E no real - a formação de um futuro governo com a presença da federação brasileira, retrato do mosaico político que é este país.
| |