"Mulheres e Militância no Espírito Santo: Encontros e Confrontos Durante a Ditadura Militar". Este é o título da tese de Ingrid Faria Gianordoli Nascimento, aprovada pelo programa de doutorado em Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) nesta terça-feira (18). A banca indicou que a pesquisa deve ser publicada, por sua importância.
Ingrid Faria Gianordoli Nascimento, 32 anos, também fez mestrado e se graduou em Psicologia na Ufes. Por concurso, ingressou na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) onde, agora doutora, passa a professora adjunta.
A banca que aprovou a tese foi formada pelos professores da Ufes Zeidi Araújo Trindade, que a orientou, Maria Margarida Pereira Rodrigues e Lídio de Souza; e, por Ângela Arruda, da UFRJ, e Denise Jodelet, da EHESS, instituição francesa.
O estudo de Ingrid Faria Gianordoli Nascimento analisa a atuação de nove mulheres no Espírito Santo no período de 1964 a 1973. Das combatentes capixabas, três eram da Ação Popular (AP), cinco do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), e uma do Partido Comunista Revolucionário (PCR). Além da participação partidária, as mulheres atuavam no movimento estudantil, na universidade ou no curso secundário (atual ensino médio).
Um dos grupos analisados teve militância de 1964 a 1968. Outro atuou entre 1971 e 1972. As militantes do PCdoB, por exemplo, estavam sendo preparadas para atuar na Guerrilha do Araguaia. Os militares, que mobilizaram todas as suas forças do País e aniquilaram os revolucionários em Araguaia (entre 71 e 74), frustou o envio das ativistas capixabas para a área de combate.
O Ato Institucional nº 5, o AI 5, que consolidou o regime de exceção no País, decretando o fim das liberdades individuais e partidárias, também contribuiu para frustar a ação das militantes. Todas foram presas políticas e, todas, vítimas de torturas aplicadas nos porões da ditadura militar.
Ingrid Faria Gianordoli Nascimento lembra em sua pesquisa o período da ditadura militar, instaurada no País em 1964 e que perdurou até 1985, marcado por uma sucessão de mudanças políticas, econômicas e sociais, e caracterizado também pela gradativa e intensa repressão político-social aos seus opositores.
E ainda que "nesse cenário, destaca-se a militância política de mulheres opositoras ao regime. Transformando o contexto social e sendo por ele transformadas, essas mulheres, então, tanto no campo da política quanto no das relações de gênero, romperam com códigos tradicionais de conduta e propuseram, em seus lugares, formas alternativas de viver a condição feminina. Buscamos nessa investigação focalizar os aspectos psicossociais, principalmente aqueles relacionados aos processos de identificação, implicados na interconexão entre relações de gênero e campo político na militância de mulheres contra a ditadura militar brasileira, entre os anos de 1964 e 1985, no Espírito Santo".
Nesta quarta-feira (19), Ingrid Faria Gianordoli Nascimento informou que não fez registro sobre as "desaparecidas", como são chamadas as mulheres que foram mortas pela ditadura militar.
E lembrou que há diferença entre as revolucionárias (não necessariamente capixabas) dos anos 30: as que enfrentaram a ditadura pós-64 tinham o seu próprio capital político e social. Afirma ainda que há referências às militantes do início até meados do século passado, em um livro publicado pela Assembléia Legislativa capixaba.
As militantes cuja atuação política foi investigada não foram identificadas. Poderão ser citadas, dependendo de acordo com a pesquisadora, no livro que será publicado. Ingrid Faria Gianordoli Nascimento relata que as militantes mantêm os projetos de luta pela igualdade, mesmo que não por via da atividade partidária, mas pelo engajamento nas suas profissões e em movimentos sociais.
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Leia o resumo da pesquisa de Ingrid Faria Gianordoli Nascimento
MULHERES E MILITÂNCIA NO ESPÍRITO SANTO: ENCONTROS E CONFRONTOS DURANTE A DITADURA MILITAR
RESUMO
O período da ditadura militar, instaurada no País em 1964 e que perdurou até 1985, marcado por uma sucessão de mudanças políticas, econômicas e sociais, caracterizou-se também pela gradativa e intensa repressão político-social aos seus opositores. Nesse cenário, destaca-se a militância política de mulheres opositoras ao regime. Transformando o contexto social e sendo por ele transformadas, essas mulheres, então, tanto no campo da política quanto no das relações de gênero, romperam com códigos tradicionais de conduta e propuseram, em seus lugares, formas alternativas de viver a condição feminina. Buscamos nessa investigação focalizar os aspectos psicossociais, principalmente aqueles relacionados aos processos de identificação, implicados na interconexão entre relações de gênero e campo político na militância de mulheres contra a ditadura militar brasileira, entre os anos de 1964 e 1985, no Estado do Espírito Santo. Com esse objetivo, foram realizadas entrevistas individuais com 09 mulheres que participaram de organizações que possuíam uma clara posição de resistência ao regime autoritário entre os anos de 1964 e 1973. Todas as entrevistadas foram estudantes universitárias engajadas no movimento estudantil e filiadas, durante algum tempo, a partidos políticos clandestinos. Também estiveram presas por períodos que variaram entre um mês e um ano. Buscou-se investigar a trajetória de vida dessas mulheres da infância aos dias atuais. As informações foram submetidas ao método fenomenológico para investigação psicológica e reorganizadas em narrativas que procuraram a identificação das particularidades e dos pontos em comum nas experiências relatadas. A análise dos dados procurou destacar, a partir dos relatos sobre suas trajetórias, a dinâmica dos elementos em jogo na constituição da identidade dessas mulheres. Entre esses elementos, estão os projetos de individuação e de autonomia; as motivações para a militância; os conflitos entre projetos individuais e coletivos; a vivência de situações limite, como a prisão e a tortura; o casamento; a maternidade; as avaliações sobre o período e a participação política atual. Na reconstrução de suas trajetórias, as ex-militantes revelam a interação complexa entre motivações e escolhas e experiências incomuns e, por vezes duras, que delas resultaram. A complexidade dessa interação, por sua vez, contribui, e, de forma evidente, continua contribuindo, para a constituição de suas identidades.
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