Vitória (ES), edição de 02 de dezembro de 2006    
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Objets Propagés (parte 2/2)



Gabriel Menotti
Atualizado toda sexta-feira, às 16 horas



Não cabe aqui esmiuçar porquê ou senão as pessoas se sentem compelidas a repassar spams com vídeos. Mas não há dúvida de que essas razões estejam tão presentes na obra e no meio quanto no próprio espectador-retransmissor. Não basta soltar determinado vídeo em ambiente propício para que ele se espalhe por osmose. Essa dinâmica depende da atuação conjunta (ainda que desarticulada) de uma série de agentes.

Na verdade, é aí que opera um segundo procedimento, mais generalizado, que pode servir para caracterizar o vídeo de Internet como formato. Não se trata de um procedimento discursivo, mas assertivo, digno de um curador, que endossa e revalida a obra.

Ainda assim, é um procedimento não menos autoral do que o primeiro, de recorte, que ele imita a cada estágio. Ao propagar determinado vídeo, o espectador o reenquadra, acentuando sua importância. São esses sucessivos reenquadramentos que terminarão por criar a gestalt processual do meio.

Dessa forma, a autoria do vídeo de Internet se dilui durante todo o seu processo de difusão, abrindo precedente para os remixes, mash-ups e versões alternativas. Quanto mais se espalha, mais se torna obra coletiva, manifestação folclórica. Alguém pode fazer uma animação em flash, enviar para seus amigos pessoais, e recebê-la dois dias depois, através de listas de discussão públicas. Nessa operação, a autoria foi tão descaracterizada que o criador (original) da obra (original) se vê colocado no lugar de espectador.

O papel do retransmissor é tão importante dentro dessa estrutura que é ele que vai assumir a vaga posição de autoridade sobre as obras. "Realizador" de vídeos de Internet é uma atividade tão desregulada que sou obrigado a colocá-la entre aspas. Quem cria tal e qual vídeo quase nunca chega a ser reconhecido pelo grande público. Dessa forma, a única referência que se impõe à obra é o canal pelo qual ela ganha o mundo - normalmente, blogs de indexação (e criação) de hype, como BoingBoing, Fark, ou mesmo o brasileiro Kibeloco, constantemente criticado por aplicar sua logomarca em tudo que reproduz (e que agora tem um quadro num programa de TV, meio hiper-autorizado, ora vejam só).

Nesse contexto, a legitimidade midiática (se não artística) de uma obra depende da densidade do seu casting, que não é mais broad, mas peered. Essa espécie de popularidade é uma forma de autenticação muito particular da rede. Até os programas de busca, o que mais próximo temos de norteadores do território online, se pautam por esse critério: uma página ganha relevância quanto mais links apontem para ela.

É curioso notar como essa estrutura se choca com a dos canais instituídos, e termina por levar "celebridades de internet" para as páginas de grandes diários novaiorquinos. O caso mais interessante talvez seja o de Willian Hung, candidato de American Idol que havia sido terminantemente rejeitado pelo júri do programa. Em 2004, o vídeo de sua apresentação musical disseminou-se pela rede, rendendo-lhe uma fama maior do que jamais poderia ter tido mesmo que vencesse a competição.

Hung acabou por retornar triunfante aos meios tradicionais, fechou contrato com gravadora, lançou discos. Ironicamente, o responsável pelo seu sucesso foi o mesmo vídeo que, dentro de American Idol, havia servido para desprestigiá-lo. Extraído de seu contexto original, o vídeo se tornou um mecanismo de celebrização do calouro fracassado. Não há dúvidas de que, por ação de todos e de ninguém, aquela edição de imagens havia se tornado outra coisa.

Saiba mais!

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