Vitória (ES), edição de fim de semana
 
'A sociedade vai se encarregar da depuração do Parlamento'
Faltou debate, sobraram turbulências





Cristina Moura


"A vitória pertence ao mais perseverante."
(Napoleão Bonaparte)

Ele já falou na tribuna da Assembléia Legislativa, dizendo-se um 'marinheiro de primeira viagem'. O marinheiro parece que gostou de navegar e confessa ter começado sua carreira parlamentar bem no olho do furacão. Denúncias, pouca profundidade de discussão no plenário e uma gama de interesses contrários aos da sociedade.

Aproximando-se das definições para este ano eleitoral, o deputado Cláudio Thiago faz, nesta entrevista, um balanço curioso sobre os três possíveis candidatos ao governo do Estado. Aí é que está uma situação, que parece um problema: ele é o líder do governo Paulo Hartung na AL. É conhecido pelos colegas como um homem pacato e conciliador. Vai tentar a reeleição num cenário ainda incerto, já que o PL conta com perfis também diferenciados.

O senador Magno Malta, por exemplo, já se definiu por Sérgio Vidigal (PDT) há um certo tempo. Ratificou a posição na sua última entrevista a Século Diário. No interior do Estado, as confabulações se intensificam. E o deputado Cláudio Thiago aprendeu rápido sobre o seu posto parlamentar, sem deixar de lado a sua experiência sindical: diz que em política tudo é possível.

Século Diário: - Deputado, vamos conversar sobre eleições 2006. Como é que o senhor, líder do governo Paulo Hartung na Assembléia Legislativa, está se posicionando nesse cenário eleitoral?

  
Foto: Apoena
  
Cláudio Thiago: - Primeiramente, eu quero dizer que o ambiente político de 2006 é bem diferente do ambiente político de 2003. Há uma consciência maior. Os formadores de opinião, os meios de comunicação, as instituições, principalmente o eleitor. Essa questão da política nacional, dos escândalos, tem criado uma situação tal em que o eleitor vai ter, vai fazer a diferença na próxima eleição, ou seja, o eleitor vai estar muito mais consciente de quem ele está escolhendo, certo? Qual o parlamentar ou qual o candidato que ele quer para que mude ou não a sua vida. Mas veja esta diferença: vai ser uma eleição diferenciada, mas consciente, principalmente não querendo aquele oba-oba que houve nas eleições anteriores, de 2002. Muitos candidatos, com muitos recursos e a própria sociedade conivente com esses candidatos. Hoje a sociedade, através do trabalho da imprensa, tem um conhecimento maior de que os recursos utilizados nas campanhas, principalmente essas campanhas milionárias, são recursos desviados deles mesmos porque são eles que pagam os tributos, os impostos, e, na verdade, deveria haver um retorno através de serviços públicos de qualidade. Esse é o primeiro ponto. O segundo ponto é que a conjuntura dessa eleição é um pouco diferente. Os pré-candidatos às chapas de governo e Senado têm um perfil parecido. Um perfil mais técnico. Estivemos observando aí Sérgio Vidigal (PDT), Cláudio Vereza (PT), Paulo Hartung (PMDB), se for para a reeleição, e outros que podem estar entrando nessa disputa para o Senado têm perfis mais técnicos. Não construíram sua história política baseada na corrupção ou manipulações que mancharam a carreira. Então, eles têm quase o mesmo perfil. A diferença vai ser no debate, naquele que consiga apresentar uma proposta que convença ou mais de uma proposta que convença o eleitor, que convença o eleitor do fundo do seu coração e do fundo da sua alma. Eles têm o mesmo perfil. Você vê o ex-prefeito Sérgio Vidigal. Correto dizer que ele teve uma boa avaliação dos oito anos que ele teve como mandato. Conseguiu fazer o seu sucessor com facilidade, um técnico desconhecido e, ao mesmo tempo, é visível o avanço que ocorreu no município de Serra. Então, ele tem um perfil quase parecido com o perfil do ex-prefeito Paulo Hartung em Vitória. Antes, o governador conseguiu estar e com boa visibilidade na sociedade capixaba. Eu vejo essa situação. No caso de Vereza, do deputado Vereza, também um pré-candidato, é um marco em relação à Assembléia Legislativa. Ele fez a diferença de uma ruptura ética e administrativa na Casa. Então, ele também tem o perfil muito parecido na história política, envolvido nos movimentos sociais, movimentos religiosos, mas tem um perfil também muito parecido. Aliás, os três têm perfil de bons administradores, de um bom relacionamento com o povo e, principalmente, tiveram uma vida política vitoriosa. Então, é uma disputa até interessante para a democracia, para que o eleitor tenha opções para estar escolhendo aquele que melhor apresentar suas propostas.

- E o Senado?

- Vou fazer uma leitura, não só em relação ao PL. Primeiro, eu vou fazer uma leitura do ambiente político e depois eu vou estar falando o que o PL define. Essa eleição tem outra situação muito diferenciada também. Há uma interligação com a política nacional. Dependendo das decisões dos principais partidos em Brasília, principalmente PSDB, PFL, PMDB, PP, PSB... o reflexo virá na elucidação, vou usar esse termo, das condições aqui do cenário capixaba. Primeiro cenário: se houver candidatura no PMDB em Brasília, é uma situação aqui no Estado. Se não houver essa candidatura do PMDB, o PMDB não se aliar a ninguém em Brasília, é outra conjuntura. Por quê? Estamos falando das três principais vagas, que são: governo do Estado, vice-governador e Senado. Para baixo, quer dizer, as eleições para deputados federais e deputados estaduais, dependem primeiro dessa acomodação de forças políticas. Nós temos hoje muitos caciques para poucos índios (risos) ou, vamos dizer assim, para poucas ocupações. Para o Senado, uma para governador e uma para vice. Então, se não houver essa acomodação natural e o PMDB que vai definir. Se o PSDB não puder se coligar com o governador Paulo Hartung não vai estar brigando para ser vice do governador Paulo Hartung. Mas, se ele puder, naturalmente ele pode estar até abrindo mão de disputar o Senado. O PSDB se colocou com uma candidatura ao Senado. Por que? Um candidato forte, o candidato a presidente deles, o Geraldo Alckmin. Mas, se o governador Paulo Hartung não tem um vice, que poderia ser o palanque do Alckmin, eu acho até que o governo vai ficar, de certa forma, neutro nesse primeiro momento, nesse primeiro turno, até porque ele tem uma ligação muito forte e positiva com o governo federal. Aliás, foi o melhor governo, há muitos anos, a visitar o Estado do Espírito Santo, o governo Lula. Tirando as questões éticas e conjunturais, ele, em termos de administração pública foi o que mais investiu no Estado. E o governador usufruiu, conquistou esse espaço e até uma certa confiança do governo federal para estar alavancando recursos para o Estado do Espírito Santo. Então, esse quebra-cabeças vai depender, primeiro, qual o plano. O PMDB vai lançar, realmente, um candidato a presidente? Porque se lançar é um cenário. Se não, outro... Vai depender do primeiro ponto. Havendo essa decisão, as forças vão se acomodar. São interesses diversos. Cada partido tem uma prioridade. No caso do PMDB, quer fazer o governo do Estado, é a primeira prioridade. No PSB a prioridade já é a candidatura do Renato Casagrande, que ocupou um espaço muito grande no cenário.

  
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- Onde estará o PL, então?

- O PL e outros partidos menores, como o PTB... têm seus interesses de acordo com suas necessidades. O PL, por exemplo, quer ter um crescimento em relação à sua bancada estadual. Nós queremos dobrar a nossa bancada, portanto, de dois para quatro parlamentares, e manter a nossa posição na Câmara Federal. Ou seja: queremos eleger um deputado federal, manter esse deputado federal, e nós, de certa forma, dobrarmos nossa bandada estadual. Então, nós estamos analisando num primeiro momento, essa questão de qual o voto que pode nos dar uma condição de termos êxito no nosso projeto. Então, o PL está buscando isso. Só que, ao mesmo tempo, a gente tem que estar avaliando todo o outro cenário de governo estadual e Senado. E de presidente da República, obviamente. Acho que temos que ter essa decisão. Aí, você poderia me fazer uma pergunta: se o PL hoje fechar com o candidato A, B ou C, que não seja o governador Paulo Hartung, como se comportariam internamente os membros do PL? Nós não tivemos esse debate dentro do PL. O PL não é só composto por Magno Malta, por Cláudio Thiago, por Neucimar Fraga ou Robson Vaillant. Esses têm mandato na Assembléia Legislativa, no Senado e na Câmara Federal. Nos diretórios temos hoje 50 vereadores, dois prefeitos... Então, temos que estar buscando também um diálogo com quem, realmente, tem força no PL, que são as bases. Então, não houve essa discussão. O que houve foi um certo convite e o PL tem participado de todas as articulações, conversando com todas as correntes políticas. Já conversamos com o PDT, já conversamos com o PT, já conversamos com o governador Paulo Hartung, com o PMDB, conversamos com o Casagrande. O próprio Neucimar Fraga já esteve conversando duas vezes com o governador Paulo Hartung, fazendo uma análise da conjuntura política estadual. O PL sempre esteve conversando com João Coser (PT)... Mas eu vejo também que a eleição 2006 para governo do Estado está tentando olhar o cenário de 2010. Não é difícil de analisar que o próprio João Coser já tem uma visão para 2010. O próprio Max Filho (PDT) já está pensando na eleição de 2010. O próprio Vidigal pode já estar pensando. Não estou dizendo que ele não tenha condições de vencer o pleito de 2006. Em política, tudo é possível. Mas ele também já está colocando seu nome para demarcar um possível território. Então, hoje eu já te diria que a eleição de 2006 tem um forte laço com a eleição de 2010. Com quatro já pré-candidatos a 2010: João Coser, Sérgio Vidigal, Max Filho, um do governo estadual, do atual governo... E pode até surgir Magno Malta! O cenário é esse. Não vejo outro. O resto é tudo pista. São pistas, às vezes não verdadeiras para embaralhar o processo político. Agora, em relação à minha posição, sou líder do governo, fui convidado pelo governador Paulo Hartung, fui ao partido informar que recebi o convite, até porque eu tinha uma posição de independência na Casa nos primeiros dois anos, sempre respeitando também as outras posições divergentes. Mas eu fui convidado a assumir um posto importante na Casa.