Uma famosa passagem da "Morte em Veneza", do escritor alemão Thomas Mann, diz que "para que qualquer produto intelectual de peso possa surtir de imediato um efeito amplo e profundo, é preciso que haja uma afinidade secreta, uma coincidência entre o destino pessoal de seu autor e o destino anônimo de sua geração". Passando pela heresia que é referenciar "V de Vingança" no maior romancista do século XX, chegamos àquelas muitas ligações que este trecho têm com o primeiro filme do diretor James McTeigue, em cartaz nos cinemas do Estado há duas semanas. O caráter de produto intelectual talvez pareça, numa primeira impressão, um exagero, afinal de contas é apenas mais uma adaptação para as telas de uma graphic novel (ou, vá lá, gibi-cabeça), desta vez do inglês Alan Moore. Se a fonte quadrinesca, no entanto, já era de uma voltagem política grande, a passagem para o cinema parece tê-la elevada à última potência. É aqui que nos encontramos com outra parte da citação de Mann, a que diz respeito à coincidência entre o destino de um autor e o de sua geração. Coincidência no sentido de acontecimento paralelo, mas não casual - é incrível o número de pontos de contato que "V de Vingança" têm com toda a recente safra de filmes feitos no colo do monstro hollywoodiano e que se recusam ao afago simplista das fórmulas prontas, se arriscando de cabeça na seara política (o que só confirma a idéia de que o parâmetro da relevância no cinema contemporâneo está mesmo na disposição em tomar partido das feridas mais profundas do mundo: qualquer filme que se negue a dialogar com o agora está condenado ao esquecimento instantâneo).
Vejamos: num futuro próximo, estraçalhado física e moralmente por guerras atômicas e biológicas que permitem o ressurgimento do fascismo, o braço de dominação mais claro do regime é o uso tendencioso da imprensa ("Boa Noite e Boa Sorte"), especialmente para espalhar a unificação ideológica que promove a perseguição de todas as minorias, especialmente a dos homossexuais ("Brokeback Mountain"); a grande revolta contra esse sistema partirá de um homem incógnito e mascarado que conduz uma jovem ao trabalho sujo da guerra sem que ela, no entanto, tenha consciência da magnitude daquilo que passa a defender ("Munique"), e o passo decisivo deste líder das sombras para derrubar o regime fascista é justamente mascarar toda a população londrina, de modo que os soldados inimigos não possam distinguir os manifestantes por trás do disfarce, levando ao máximo a vontade de uniformização do poder estabelecido, mas usando-a contra ele ("O Plano Perfeito"). Por mais que George Clooney, Ang Lee, Steven Spielberg e Spike Lee sejam muito diferentes entre si, e mais diferentes ainda quando comparados ao novato James McTeigue (e também aos irmãos Wachowski, roteiristas deste filme e famosos pela trilogia "Matrix"), não pode ser puro acaso.
É também uma questão geracional que está no coração de "V de Vingança". A máscara que o misterioso V (Hugo Weaving) usa é inspirada numa figura histórica da Inglaterra, o revolucionário Guy Fawkes, que no século XVI planejara explodir o Parlamento britânico como resposta à opressão do regime monarquista, mas que tivera seus planos frustrados, sendo preso e executado. V é o último representante desta linhagem inconformada nascida em Fawkes, e como todo fim de uma estrada longa e penosa, sofre os efeitos de ser uma espécie em extinção. A infâmia de seu sorriso constante e os arroubos retóricos, em que declama longas poesias e recita Shakespeare ao som de bossa-nova, não escondem: V é completamente maluco. Sua loucura é explicada pelo passado traumático, mas apenas em parte. Ao peso dos séculos de sofrimento de um povo oprimido (do qual ele é tão vítima quanto os outros) soma-se um coeficiente puramente pessoal, que é sua vingança contra aqueles que o deformaram. Se pretende a revolução em nome da maioria, ao mesmo tempo V não abre mão de um expediente que satisfaz a ele única e exclusivamente, e é possível que seja até esta revolução particular (egoísta, auto-centrada) o grande motor de suas ações. V, o poder reativo já caduco e esclerosado, realiza este último ato de bravura, desperta a população londrina contra o regime fascista, elimina todos os seus algozes, mas sabe que é incapaz de liderar o novo país que surgirá depois desta transformação. Sua idéia de poder (ou a supressão dele) está ultrapassada, sua função é a de simples catalisador. Daí a importância da jovem Evey Hammond (Natalie Portman), filha de uma outra geração, para quem V passa o bastão. Caberá a ela, às suas idéias novas, despidas da pequenez moral da vingança, levar adiante a explosão detonada pelo mascarado. De todas as relações suscitadas entre V e Evey, pai e filha, mestre e pupila, ou mesmo amantes, a mais forte é essa: uma força que morre envelhecida e outra que nasce com a juventude de um novo pensamento.
Mas há, lá no meio de "V de Vingança", um fator aparentemente aleatório, mas que existe justamente para confundir um pouco este marco divisório entre passado e futuro que a narrativa deixa tão claro. O filme de McTeigue tem, muito mais do que tinha a fonte quadrinesca, a obra do escritor George Orwell como referência. Quando "1984" chegou às telas do cinema, no mesmo ano que indica o título e pelas mãos do diretor inglês Michael Radford, o protagonista errante daquele mundo fascista onde todas as liberdades eram suprimidas em nome da ordem era o então jovem ator John Hurt. Perseguido pela presença constante do Big Brother, o grande líder que tudo via e tudo ouvia, Hurt tentava enfrentar o regime do jeito que podia. Vinte e dois anos se passam, e o antigo perseguido volta agora na pele (enrugada e incrivelmente expressiva) do perseguidor. Em "V de Vingança" John Hurt interpreta o grande líder da Inglaterra fascista, Adam Satlher - ou talvez Adolf Hitler. Como o Big Brother orwelliano, só aparece aos outros através de transmissões de tevê em que seu rosto ocupa a totalidade da tela, sempre imperativo, dando ordens e repetindo lemas de triunfo. Se Evey Hammond aparece como o símbolo da esperança de dias melhores, se existe para substituir a consciência revolucionária arcaica de V, não há a mínima garantia de que, mais adiante, as vicissitudes do poder não a tornem de assalto. A resposta a essa possibilidade assustadora, na graphic novel de Alan Moore, era o anarquismo, a ausência de poder. James McTeigue não se entusiasma tanto com esta resposta, e prefere deixar em "V de Vingança" a inquietação da dúvida. Que papel caberá à Evey daqui a vinte e dois anos, que vontades terá a população que atende ao chamado de V e vai às ruas protestar contra a opressão? Não sabemos. Melhor é que deixemos esta parte da equação na conta de uma das interpretações da "afinidade secreta" a que Thomas Mann se refere no começo.
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