Que cara de pau!




Caetano Roque da Silva


Com a maior transparência - o que, aliás, não lhe é sequer próprio -, a Companhia Vale do Rio Doce revelou que na 8ª Usina de Pelotas que vai construir em Tubarão, dos 300 empregados que serão contratados só 130 o serão pela empresa. Os outros 170, por empreiteiras.

É muita cara de pau de uma empresa que cada vez mais enriquece em combinação com o empobrecimento do trabalhador capixaba. Não acontece absolutamente nada contra ela. O governo do Estado não reclama, a Delegacia do Trabalho também não reclama, o sindicato da categoria fica vermelho de raiva, mas não reage como devia. Ela vai aprontando à vontade com o trabalhador.

Isto vai durar até quando? Claro que, quando não vai para o enfrentamento, o sindicato sabe do risco que é esse enfrentamento. Prefere ficar na política de entregar os anéis para não perder os dedos. Pois se reagir isoladamente corre o risco de a Vale do Rio Doce aumentar o contingente de terceirizados e detrimento do ferroviário.

A ação teria que ser conjunta: Ministério do Trabalho, governo do Estado, centrais sindicais, políticos (políticos, sim, que vivem esse estado de coisas feito avestruzes, com a cabeça escondida).

Compreendo em parte o receio do Sindicato dos Ferroviários, pois sou daqueles que acham que ele deveria estar reunindo forças com outros segmentos sociais e políticos para colocar na roda a discussão do avanço da mão-de-obra alugada sobre a permanente, aquela logicamente bem mais barata e sem os devidos riscos previdenciários.

Não é sem essa razão que a CVRD não aceita estabelecer piso salarial com a categoria ferroviária. Imaginem que uma categoria com a representatividade dos ferroviários, que tem até uma de suas dirigentes deputada estadual (Janete de Sá), não consegue estabelecer sequer o piso da categoria, que praticamente quase todos os demais sindicatos tem.

Sem falar da defasagem salarial dos ferroviários, motivada pela terceirização da mão-de-obra. Hoje, existem, em média, 3 mil ferroviários para 5 mil terceirizados. É um massacre sobre a categoria, uma ameaça à própria existência dela.

Para aumentar o massacre sobre os ferroviários com essa política de terceirização da mão-de-obra, a CVRD está contratando executivos que perteceram à Ambev, especialistas em extrair produtividade de trabalhador na base de metas sustentadas por programas coercitivos, para não dizer terroristas (a revista "Época", desta semana, traz uma ampla reportagem sobre a atuação deles na Ambev).

A questão não está, portanto, em culpar o(s) sindicato(s) pelo momento dramático que vivem os trabalhadores das megaempresas alienígenas - CVRD, CST, Aracruz e Samarco - mas em chamar os dirigentes sindicais para repensar a situação e buscar saída, sabendo, de antemão, que só a classe trabalhadora salva a classe trabalhadora.