Vitória (ES), edição de 19 de abril de 2006    
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Os lambedores de Ariana para Dionísio



Cristina Moura


  
Foto: Divulgação
  
Minha descoberta de Hilda Hilst foi, no mínimo, engraçada. Durante o curso de Comunicação Social na UFPB, ingressei na disciplina Realidade Sócio-política Brasileira, com o professor Dinarte Varela. Apaixonado pelo período Vargas, isto é, pelos entraves jornalísticos se fizeram no país, Varela não deixava de valorizar os atores literários da época.

Um deles, aliás, uma atriz literária, Hilda Hilst. Certa vez, "O Caderno Rosa de Lory Lamby" (1992) circulou na sala de aula. Peguei o livro. Pedi emprestado. Li numa tarde de sábado. A partir daquele momento, queria ler tudo da autora. Varela me ajudou a encontrar algumas obras, outras peguei emprestadas com um amigo do curso.

Meu fascínio por Hilda Hilst dizia respeito à maneira direta e despudorada em dizer as coisas. Se possível, durante as entrevistas, soltar um palavrão, um pum ou apontar o dedo médio para os fotógrafos. Diante desse caldeirão de personalidade, o cantor e compositor Zeca Baleiro também se rendeu.

Conheci a música de Zeca no mesmo período e também me rendi ao arranjo que ele fez para "Vapor Barato", de Wally Salomão. Quase tenho um troço quando vejo Gal e Zeca cantando, acompanhados por uma banda de arrepiar, chefiada por Wagner Tiso. A música de Zeca, "À flor da pele" foi embalada pelo vapor do barato no palco. Delícia.

O trabalho foi gravado no show Acústico MTV, em 1997, no Rio. Anos depois, conheci o que Zeca Baleiro fez para o folclore nordestino, em especial, o bumba-meu-boi maranhense. Algumas releituras, incluindo do capixaba e cachoeirense Sérgio Sampaio.

Agora, estou diante de um quadro que me corta as palavras. Pode me chamar de sensasionalista. Não me importo. Trata-se de um êxtase. Mas "Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé, de Ariana para Dionísio" é o que a crítica chama de "música para ler". Cantoras embalam o ouvinte-leitor, através de poemas de Hilda Hilst musicados por Zeca Baleiro e gravados pelo selo do cantor, Saravá Discos.

Amizade poética

Hilda faleceu em fevereiro de 2004, mas não sem conhecer o primeiro disco de Zeca, "Onde Andará Stephen Fry?" (1997). A poetisa não demorou a responder e, melhor: a presentear o cantor com alguns poemas. A "História do Amor Impossível de Ariana e Dionísio" faz parte do livro "Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão" (1974). As gravações haviam começado em 2003.

As variações femininas logo foram captadas por Zeca, que foi convidando as princesas e rainhas da Música Popular Brasileira: Rita Ribeiro, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Ângela Ro Ro, Ná Ozzetti, Zélia Duncan, Olívia Byington, Mônica Salmaso e Ângela Maria estão no disco.

Certa vez, ao Século Diário, Zeca Baleiro declarou: "A Hilda é uma grande referência para mim. Lembro que fiquei chapado quando conheci sua literatura, algo desconcertante. Depois nos conhecemos, nos tornamos amigos e surgiu este projeto nas nossas cabeças. Adoro o resultado, e espero que sirva para que mais pessoas se convertam à poesia dela." Ao leitor, as nossas recomendações.

Saiba mais!

Clique aqui e leia a biografia de Hilda Hilst

Clique aqui e leia um trecho de "O Caderno Rosa de Lori Lamby"

Clique aqui e leia poemas de Hilda Hilst

Clique aqui e ouça o disco produzido por Zeca Baleiro

 

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