Vitória (ES), edição de 17 de abril de 2006    
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A alma neoconcreta de Oiticica



Cristina Moura




  
Foto: Divulgação
  
Ao se revelar um artista completo, do ponto de vista da plenitude criadora, Hélio Oiticica enveredou por vários caminhos da pintura e da escultura. Revelou um lado forte do povo brasileiro, o de se mostrar em relevo, ou seja, assumir um papel relevante nas Artes Plásticas.
O gosto pelo relevo na sobreposição de tintas e cores por Oiticica não foi por acaso.

Era o vigor da onda concreta se configurando diante de um público que necessitava de novas direções. Quando já havia experimentado diversas manifestações, soltou esta: "Descobri que o que faço é Música e que Música não é 'uma das artes', mas a síntese da conseqüência da descoberta do corpo".

Hélio Oiticica provou a vanguarda de um comportamento ligado às raízes nacionais, mas de olho em outros furacões distantes. Nascido no Rio de Janeiro, em 1937, o artista criou ritmos, rompeu com algumas linguagens, provocou os críticos. Criou os "meta-esquemas", desenhos manipulados com o objetivo de estimular o olhar e a mente. Seria, portanto, o movimento "Neoconcreto", que sugeriu outra postura sobre o espaço realizado para a criação.

Monocromias, objetos superpostos, outros objetos coloridos suspensos no ar, placas tridimensionais e interativas. Diante dessa aquarela de imaginários, provocou também o público, em 1965, no MAM (Museu de Arte Moderna) Rio, apresentando "Parangolé", sua primeira manifestação ambiental coletiva, numa homenagem à Mangueira.

Em seguida, também no MAM Rio, sua "Tropicália", um labirinto monitorado por sistema televisivo interno. Nos anos posteriores, outros olhares apreciaram as peripécias de Oiticica: Londres, Nova York. Após sua morte, em 1982, suas obras percorrem Roterdã, Paris, Barcelona, Lisboa e Mineapolis. E neste ano, em Berlim, mas com outros contemporâneos de uma época tão complexa, porém rica de produções artísticas.

Tropicália em Berlim

Essa tal de Tropicália está com os dias contados. Diziam os homens do poder, aqueles mesmos posando de imperadores de uma República. O país necessitava de uma postura maior de auto-afirmação. A partir de 1964, as idéias ganharam força: a força da resistência. Com esse dispositivo, vieram os artistas, de armas em punho.

As armas? Ora, a própria Arte em revolução. Isso pode ser bem verificado nos estudos de Alex Vianny para o cinema da época, o nosso conhecido e propalado Cinema Novo. A música, o teatro, as formas de manifestação artística foram tomando assento, o da liberdade. Sim, pois, uma liberdade vigiada, nos moldes filosóficos de Sartre, quando diz que "liberdade é querer o que a gente pode".

Grande Sartre. Mas grande também foi a explosão do espírito tropicalista no Brasil. Parece que do jeito que o espírito nacionalista cavalgou no solo brasileiro, no início do século XX, o tropicalista invadiu o país, em todas as suas esferas políticas. Pensando nisso, Berlim abre os braços arianos para o fenômeno multicultural brasileiro, exatamente durante a Copa do Mundo, depois de um estrondoso sucesso na Barbican Art Gallery de Londres.

A cidade alemã recebe 250 exibições, incluindo de design, livros, moda e documentários. Lygia Clark, Antonio Dias, Lygia Pape e Hélio Oiticica são alguns dos nomes. Desde o último dia 16 de fevereiro e até o próximo dia 21 de maio, a Tropicália está invadindo a mente dos berlinenses. Sem deixar de mostrar, no entanto, os conflitos políticos que ocorriam, não somente no Brasil, mas em quase toda a América Latina.


 

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