Vitória (ES), edição de 02 de dezembro de 2006    
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O Lugar do Filme



Gabriel Menotti
Atualizado toda sexta-feira, às 16 horas



É 1995, e estamos em um restaurante de hotel. As janelas se abrem à luz de uma tarde difusa. Ao redor, turistas refestelam em silêncio com croissants, quiches e outros petiscos folclóricos. O marulhar de sua alimentação, filtrado por um poderoso microfone direcional, se transforma no ruído puramente imagético que serve de fundo para a figura de Michel Piccoli.

O ator está sentado na mesa mais próxima. Sua fisionomia descontraída ocupa quase todo o quadro, mas não o domina. Em primeiro plano, de costas para nós, se insinua Jean-Luc Godard. Quem visse de longe, poderia tomar por um feliz reencontro entre o criador e a criatura que O Desprezo revelara ao mundo.

Mas a imagem nos atinge enquadrada; o almoço não é casual. Foi arranjado pelo cineasta, a propósito das comemorações dos 100 anos do Cinema, presididas por Piccoli. A câmera apontada para o ator está gravando 2 x 50 Ans du Cinéma Français, documentário para uma série do British Film Institute.

Piccoli atendeu desarmado ao convite de Godard. Estrela decana dos estúdios franceses, seu trabalho à frente das solenidades é menos diplomático do que publicitário. Tal qual uma efígie numismática, ele sequer representa um valor, somente o ilustra. Esperava uma refeição repleta de causos e brindes. Nem imagina que alguém pudesse questionar as comemorações. Que viesse perguntar, como então perguntava o cineasta: por que agora?

"Mas se é agora que completam os 100 anos da exibição no Salon Indien", respondia Piccoli, sem entender, oferecendo as palmas com indisfarçável desconforto. "A primeira exibição de cinema."

Ao que Godard, implacável, replicava: "mas por que não a data de criação da câmera? Por que comemoramos a exploração comercial do cinema, e não a invenção de sua produção?".

Antes que os questionamentos do cineasta se aprofundem em tópicos específicos do cinema francês, vamos pausar o filme e ponderar em cima desta questão, que interessa especialmente a este trabalho.

Com efeito, diversos anos poderiam ter sido escolhidos para a inauguração do cinema. Por que não 1659, quando Christiaan Huygens fez a primeira placa animada para projeção de lanterna mágica? Ou 1832, data da criação do fenaquistiscópio de Joseph Plateau, dispositivo que reconstituía o movimento a partir de imagens discretas? Ou 1890, ano em que Étienne-Jules Marey usou sua câmera cronofotográfica para registrar uma cena animada em película de celulóide?

O próprio quinetoscópio de Thomas Edison existe desde 1891, e começou a ser usado em exibições públicas um ano antes da projeção dos Lumière. A bem da verdade, os próprios Lumière já haviam apresentado seu cinematógrafo (então também chamado de quinetoscópio) no começo de 1895, na Société d'Encouragement pour l'Industrie Nationale, em Paris, quando algumas dezenas de convidados viram La sortie des Usines Lumière.

Portanto, o que havia de especial na projeção de 28 de Dezembro 1895, realizada no Salon Indien du Grade Café, quando Auguste Lumière (o pai) e o fotógrafo Clément-Maurice apresentaram dez filmes para "trinta e dois curiosos"? O que havia de único naquela ocasião, que a torna apta a ser eleita como momento original do cinema?

O cinema, mais do que qualquer outra mídia, surgiu aos pedaços. Diversas técnicas e tecnologias, criadas de maneira independente, vieram se articulando através de séculos até que se solidificaram em um processo mais ou menos coeso de produção e consumo. O elemento-chave desta coesão está presente na exibição do Salon Indien: o germe do que, na falta de termo melhor, podemos chamar de moviegoing; o ir ao cinema.

A exibição do Salon Indien foi a primeira pública e pagante. Pública em dois sentidos: em primeiro lugar, ao contrário do que acontecia com o quinetoscópio de Edison, feito para ser utilizado por um espectador de cada vez, a imagem era projetada, de forma que pudesse ser vista por várias pessoas ao mesmo tempo. Além disso, diferente da "exibição de cabine" na Société d'Encouragement, ela era aberta a qualquer pessoa, contanto que pagasse.

Esse modelo permitiu estabelecer um circuito de consumo permanente no Salon Indien. Nos primeiros meses de 1896, o lugar nunca esteve vazio. Exibições aconteciam durante todo o dia, e foi o lucro decorrente dessas exibições que impulsionou a produção de novas "vistas cinematográficas".

A projeção de imagens; a reconstituição do movimento a partir de unidades discretas; sua inscrição em película; e mesmo a exploração comercial dessa tecnologia: tudo isso surgiu antes do cinema. O que vai reunir todas essas técnicas em um processo comum - e, portanto, inaugurar o meio - é precisamente a criação de um modelo de consumo apropriado, capaz de dar vazão e impulsionar a produção cinematográfica.

Assim, por mais que isso incomode Godard, o cinema enquanto tal surge não com a produção do filme, mas com o seu consumo, sua "exploração comercial". É ao redor da exibição pública pagante que o cinema floresce; produtores se separam de exibidores; uma indústria se consolida.

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