"A comida está barata, mas a agricultura está destroçada", avisa Neivon Canton, presidente da Organização das Cooperativas de Santa Catarina.
A queixa nos remete há dois anos, quando os preços agrícolas estavam lá em cima e todos elogiavam a pujança do agronegócio brasileiro. Éramos imbatíveis, os americanos iam ver como se produz soja no cerrado...
Onde foi parar aquela euforia? Nas duas últimas safras de grãos, em conseqüência de pragas e problemas climáticos, os agricultores deixaram de colher 24 milhões de toneladas. Apenas em 2005 perderam R$ 16,6 bilhões de reais, quase 10% do produto agrícola.
Esses problemas não afetam apenas os produtores. Acabam recaindo sobre todos, refletindo-se principalmente sobre os mais pobres. A crise nas lavouras elimina empregos e destrói oportunidades.
Os proprietários rurais mais bem preparados podem levar a situação em banho-maria. Não ganham mas se perdem, perdem pouco. Apertam daqui e dali e vão levando, na esperança de arribar na próxima safra, pois quem lida no campo vive muito da esperança em melhores dias. Já os pequenos, sem reservas, ficam no sufoco.
Como estarão as coisas em abril de 2007, com um governo recém-eleito? No ano que vem haverá escassez de produtos e, como conseqüência, carestia e inflação, adverte Canton. Diz ele que falta uma política agrícola clara, articulada, consistente e de longo prazo.
Vai continuar faltando, pois a agricultura está sob direção do mercado, essa entidade mítica que nos seduz e esmaga. Aos governos cabe correr atrás do prejuízo em operações tapa-buracos, como acontece no caso da febre aftosa.
Por sorte estamos livres da gripe aviária, mas até quando? A monocultura de frangos está com os dias contados. Esse sistema de criação em confinamentos não tem futuro. A superconcentração de aves em espaços reduzidos deu origem a um novo micro-organismo nefasto, fruto do estresse inerente à superprodução.
Aqui faz sentido lembrar do encontro de agroecologia realizado em novembro de 2004 em Porto Alegre. O professor Rodrigo Coutinho, da Universidade Federal do Mato Grosso, defendeu a humanização das relações econômicas no campo. Romantismo?
Coutinho trabalha há 21 anos com agricultores excluídos da lógica do sistema mercantil. Diz ele que a agricultura moderna é feita em cima da abundância de água, de energia, de solo; a praticada pelos agricultores tradicionais labuta sobre a escassez, mas é aí que está o futuro.
Poucos rurícolas ainda sabem trabalhar nessas circunstâncias, mas a humanidade está se encaminhando para isso, para a carência do petróleo, da água e de recursos genéticos. Daí o sucesso crescente da permacultura (agricultura permanente), criada pelo australiano Bill Mollison no início dos anos 70. Segundo a doutrina permacultural, as monoculturas são sistemas altamente artificiais que nunca ocorrerão na natureza, enquanto os sistemas permaculturais se aproximam tanto da natureza que não precisam de adubo, irrigação ou defensivos.
Outro professor, o espanhol Jorge García Marín, apresentou o caso de Santiago de Compostela, cidade de 150 mil habitantes que recebe anualmente três milhões de turistas, no norte da Espanha. Além de manter suas atividades tradicionais, os agricultores locais passaram a alugar quartos e oferecer pratos típicos. É um exemplo de prática ecológica isenta de estresse.
Diante dessas diversas abordagens a respeito do futuro da agricultura, é impossível não pensar no movimento dos sem-terra, que teve origem há cinquenta anos no interior do Rio Grande do Sul. Tudo começou com a revolta de um grupo de agricultores discriminados pela (falta de) política agrícola. Hoje esse contingente de desvalidos soma milhões em todo o país.
A agricultura moderna continua operando no sentido de engrossar o MST, que usa a reforma agrária como bandeira de um esforço político para dar um mínimo de auto-estima a essa gente resgatada do inferno da marginalidade mais profunda, abaixo da qual só existe a mendicância ou o crime.
Depois de ter garantida sua cesta básica e minimamente consciente de seus direitos (Estatuto da Terra, Constituição, Declaração Universal dos Direitos do Homem), o sem-terra faz qualquer negócio para não resvalar para o degrau anterior, na verdade o fundo do poço, o chão do inferno. Se no mundo competitivo de hoje até rico tem problema de baixa auto-estima, imagine-se o que vai na alma de quem está na base da pirâmide.
Por isso o aviso de Neivon Canton faz sentido. É o grito de quem convive com o risco da exclusão no campo.
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