"Pra onde vai o meu amor, quando tudo acaba?", pergunta o Mestre Chico, entre outras lindezas poéticas, na canção Almanaque.
Pois é. Em torno dessa aparentemente irrespondível pergunta do poeta, gravitam outras questões, também de natureza metafísica, por entre as quais seguimos, pelejando, tropeçando, caindo e levantando para então retomar a caminhada, primeiro apoiados em algo, alguém ou alguma substância-muleta, depois meio que cambaleantes, um tanto desorientados, temporariamente, pra depois então perceber que o determinante é o eterno renascer do Sol, e que as nuvens escuras, por mais tempo que possam mostrar-se no céu, sempre serão transitórias.
Bom, há também os que infelizmente não conseguem sair do labirinto em que se meteram, em nome do amor, e acabam fazendo infelizes a si mesmos e a outras pessoas, com atitudes às vezes irreversíveis. Mas a maioria de nós, felizmente, vai tocando a vida, levando, agregada ao seu emocional, mais uma cicatriz que tempo e trabalho poderão remover.
Vejamos: "Sou casado, amo minha mulher, mas me apaixono no ônibus, na ida para o trabalho, vivo encantos diários, de nível platônico, com outras mulheres. Sem essas possibilidades, que não considero defeitos nem virtudes, mas apenas uma característica minha, o meu casamento não sobreviveria, o que certamente me causaria muita dor. Mas estou aprendendo a respeitar minha natureza e a ter o cuidado de não fazer a companheira sofrer." O depoimento é verdadeiro, ouvido, de um amigo, homem sincero, pelo cronista.
Não, cara leitora e caro leitor, o cronista não vai derivar para análises do tipo "maior ou menor amadurecimento emocional", essas coisas. Não vai julgar o amigo, como não julgaria uma amiga que lhe fizesse revelações semelhantes, o que, aliás, também já ocorreu. Fantasia e realidade são instâncias muito diferentes.
Mas, voltando ao verso do Chico, citado lá em cima, vale perguntar: amor acaba, amor migra, amor se sublima, amor vira amizade (o amor sem sexo, segundo Freud), amor é reciclado e depositado em algum galpão no coração da gente?
Tempos atrás, em parceria com o guitarrista Luizão Bueno, este cronista compôs uma canção intitulada Cantiga de chuva, que foi gravada pelo cantor Zé Geraldo. Lá pras tantas, a letra diz: "Quando, feito a onda,/em seu vaivém,/caudalosa e turva/a paixão se esvai,/rogue a Deus, meu bem,/pelo amor que vai,/só não falte amém/pelo amor que vem."
Esse amém é uma espécie de pedido para que o coração não se embruteça demais, em caso de tristeza muito prolongada, em caso de quebra de expectativas longamente alimentadas, de sonhos, antes comuns, subitamente apartados feito bezerro em porta de curral.
É também um pedido para a obtenção do desapego, para fugir das chicanes do ego, eta egão!, para alcançar a reorganização emocional depois do luto, para que a pessoa possa se perdoar por ser tão humanamente limitada, para que o Amor ressurja na vida feito farol alto lá no finalzão do retão, em breu de noite grande.
Enquanto esses estágios naturais todos vão se cumprindo, com o tempo psicológico que cada um exigir, o que pontifica mesmo é a questão levantada pelo Chico no verso que empresta título a este texto.
Pensando bem, penso que encontrei uma resposta que atende pelo menos a minha necessidade de compreensão: o amor não vai para lugar nenhum, nem sai do lugar onde sempre esteve e estará. O que pode migrar é o desejo, sem o qual estaremos prontos para deixar de viver. E o desejo, como se sabe, é metáfora de metáfora de metáfora de metáfora, feito cascas de cebola que algum incauto fosse retirando, em busca da própria cebola, para, ao fim e ao cabo, descobrir que as cascas são a própria cebola e que a magia estava no caminho, não na chegada.
Na maioria das vezes em que ouço alguém dizer "amo você", algo me diz que ali estão prioritariamente contidas sentenças como "preciso de você", "desejo você", "é cômodo estar com você", "necessito submeter você", "sou incapaz de estar só", e outras coisas.
Amor, Amor verdadeiro, mesmo, cheio de nobreza, de nós desatados e coração de janelas escancaradas, conforme o Romantismo sedimentou tão fortemente em nossa cultura, a mim parece que a maioria de nós ainda não o sente nem por si mesmo. Daí que dizer "amo você" a qualquer outra pessoa implica numa boa chance de o (a) declarante estar mentindo, ainda que não o perceba.
Afinal, como ensinou Jung, "quem mente para o outro já mentiu primeiro para si."
Fundamental é a coragem de seguir buscando em si a chama do amor. Só então será possível pensar em distribuí-lo.
Cada um só dá o que tem. Já pensou no que você tem pra dar?
Boa e amorosa Páscoa, cara leitora e caro leitor.
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