Foto: Ricardo Medeiros
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Quando saiu da pequena cidade de Aimorés, interior de Minas Gerais, onde chegou aos cinco anos de idade, para morar em Vitória, Sebastião Salgado tinha apenas 15 anos. Nascido em 1944, esse mineiro sentia-se atraído pelo crescimento do Estado e pelas esperanças de melhoras do País. Graduou-se, então, em Economia.
Naqueles anos em que o jovem Sebastião Salgado debruçava-se sobre livros e contas para entender as cifras que movem o mundo, o Espírito Santo estava prestes a entrar num crescimento até então nunca presenciado pelo Estado. Na década de 70, duas grandes empresas instalavam-se na Grande Vitória, elevando a expectativa de aumento de ganhos da população e fazendo sonhar o maior dos pessimistas.
Pelo interior do Estado, a realidade era semelhante. No sul, por exemplo, a esperança deixava de lado os atrasos culturais da plantação de café e passava os olhos nos enormes blocos de mármore e granito que eram extraídos das montanhas locais. No norte, as cifras rondavam as planícies com as plantações de eucalipto para a produção de celulose.
Aos 23 anos, Salgado foi morar na França, onde tem sua residência oficial até hoje. Aquele estudante de Economia tomava conhecimento do alto crescimento em espécie monetária da sua segunda casa, o Brasil, e em particular o Espírito Santo. Por lá, apaixonou-se pela fotografia, abraçando-a como escolha de vida. Resolveu retratar os traços dos homens espalhados pelo mundo.
A principal base do trabalho do já fotógrafo Sebastião Salgado sempre foi a constante luta do homem com a natureza e como ela era deformada pelo homem, modificando, inclusive, os aspectos primitivos do ser humano.
Na Grande Vitória, principalmente com as expectativas em torno dos negócios da Companhia Vale do Rio Doce e da Companhia Siderúrgica de Tubarão (agora CST/Arcelor), a situação parecia virar um retrato de Salgado. Milhares de trabalhadores eram deslocados de diversas regiões do País e, especialmente, de Minas Gerais, para a abertura de novas frentes, como a construção dos portos, usinas e fábricas das duas companhias siderúrgicas. O êxodo se realizava em terras capixabas. Na grande Vitória, as cidades cresciam surpreendentemente. O aspecto mais grave era a criação de bolsões de pobreza, com o surgimento de bairros sem nenhuma infra-estrutura, como São Pedro, por exemplo. Quanto maior o lucro das empresas - e, pelo tipo de atividade que elas desempenhavam, maior a destruição da natureza - mais assustador era o contingente populacional que via seus sonhos destruídos em terras outrora vistas como o paraíso.
As décadas se passaram, as três grandes empresas situadas no Estado - inclui-se a Aracruz Celulose - aumentaram lucros e a população passou a conviver com o incômodo que pode ser esse crescimento, como a também degradação de áreas de florestas, poluição de rios, mar e ar.
Enquanto isso, o já mundialmente consagrado fotógrafo Sebastião Salgado percorria o planeta atrás de ângulos que melhor apresentassem e explicassem como o ser humano sofre com ele mesmo. As respostas da natureza eram diversas nas fotografias dele.
Quando um sonho destrói outro
Salgado conhece diversos cantos do globo e os têm registrado em negativos. Com suas inúmeras fotos que denunciam o modo predatório e precário em que se encontra a natureza, provoca reações intensas em platéias por onde suas exposições passam.
Foto: Ricardo Medeiros
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| José Armando Campos, Lélia e Sebstião Salgado |
Possivelmente, tipos como os brasileiros Celso Salatino Schenkel, Lélia Deluiz Wanick Salgado e José Armando Campos não são personagens recorrentes na produção imagética do fotógrafo mineiro, mas sofrem diretamente com aquilo representado por ele. Explico: o primeiro é representante da Unesco - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - no Brasil, que lida diretamente com a questão ambiental e educacional. O segundo é a esposa de Salgado e diretora da Amazonas Images, agência fotográfica que cuida da edição dos trabalhos do fotógrafo. O terceiro é o presidente da CST/Arcelor Brasil, um dos agentes que mais contribuíram para a degradação da natureza no Estado e em outras regiões do País.
Os três, mais Sebastião Salgado, estão reunidos no que deve ser o último projeto do fotógrafo. "Não porque eu queira, mas já tenho 62 anos de idade, estou morrendo", afirmou Salgado provocando risos durante entrevista coletiva realizada na tarde desta quinta-feira (27), no Parque da Pedra da Cebola, em Vitória, por conta da apresentação do projeto Genesis, uma ousada e duvidosa tentativa de criação de consciência ecológica em alunos da rede pública mundial.
Alunos de 100 escolas municipais da Grande Vitória participarão do piloto do projeto Genesis, a ser implementado mundialmente. Os professores da rede de ensino receberam 40 horas de treinamento voltadas para as apostilas confeccionadas pela equipe do projeto. Dentro do kit, uma pequena exposição fotográfica com diversas fotos realizadas por Salgado dentro do conceito de natureza bela proposto pela iniciativa, além de cadernos informativos e notas sobre as viagens realizadas por Salgado através do planeta. Capacitados, a tentativa é fazer com que os educadores levem conhecimento e consciência crítica aos estudantes.
Como Salgado se diz capixaba de coração, resolveu inaugurar na cidade a exposição com o mesmo nome do projeto, contendo fotos inéditas de lugares pouco explorados pelo homem, como a Ilha de Galápagos e a Patagônia.
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