Vitória (ES), edição de 01 de agosto de 2006    
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A Paixão de Clark



Rodrigo de Oliveira
Atualizado toda segunda-feira, às 16 horas.


  
Foto: Divulgação
  
Comecemos pelo fim: este é um filme em que o último plano, a última imagem, depois de todo o arrebatamento das lutas, dos salvamentos, dos momentos íntimos e dos momentos de aventura de duas horas e meia de duração, a última lembrança que temos de "Superman - O Retorno" é a do herói olhando diretamente para a câmera, diretamente para o espectador, e depois de um meio sorriso de satisfação, sair zunindo para fora da tela num vôo ligeiro que certamente conduzirá a mais alguma de suas boas ações.

Não, este não é mais um filme do homem de aço. Bryan Singer faz aqui um estudo sobre a própria condição do Superman enquanto essa entidade superior em que se transformou ao longo dos tempos, não um super-herói qualquer, mas o herói por excelência, a referência mais forte e mais imediata dessa fantasia que é dispor de alguém com poderes para mudar a história do mundo. Mas poderia ele mudar mesmo a história? E que mundo é esse?

A grande cena deste novo filme talvez seja uma que não foi nem mesmo filmada, mas que existia no roteiro e sobre a qual Singer comentou algumas vezes em suas entrevistas. Nesta cena que nunca saiu do papel veríamos Superman, depois de mais um espetacular combate ao crime, parado, simplesmente parado sobre o Grau Zero, o lugar onde um dia estiveram as Torres Gêmeas e que agora se tornou uma espécie de memorial dos atentados, e estando ali o herói se perguntaria se aquilo tudo teria mesmo acontecido caso ele estivesse por perto.

Não é difícil imaginar porque esta cena foi cortada, mas é sua idéia que nos interessa aqui: é a este mundo, o mundo real e histórico, que pertence o Superman. Nem o planeta natal, do qual somos lembrados pela assustadora voz em off do falecido Marlon Brando, nem o planeta dos quadrinhos, ao qual Lex Luthor se filia inteiramente; Superman está destinado a ser daqui, no que isso tem de melhor e de pior.

O que Bryan Singer parece querer discutir a todo momento é a própria base na qual se sustenta esta figura. As falas de Jor-El, seu pai, dão conta do caráter de sua missão na Terra. Diz, a certa altura, que está dando seu querido filho a esse planeta apenas porque acredita que sua presença aqui pode nos ajudar a melhorar, pois os humanos são, como afirma categoricamente mais adiante, uma espécie de coração bom, mas que ainda não descobriu como usá-lo em toda sua potência. Superman viria, então, para despertar o amor na humanidade. Superman viria, então, para fazer o que Jesus Cristo fizera dois mil anos antes. Mas a esse Messias predestinado são acrescentadas algumas outras características, às vezes até mesmo incompatíveis com a nobreza da missão inicial. A principal delas talvez seja a maneira espalhafatosa com que o homem de aço promove suas benfeitorias.

Depois de 5 anos afastado da Terra (o que não é nem de longe uma coincidência, pois são 5 anos desde o 11 de setembro de 2001), perdido no espaço atrás de vestígios de seu próprio planeta, era preciso um retorno de impacto. Depois de segurar nos braços um avião comercial em queda livre, Superman o estaciona justamente num campo de beisebol, onde algum jogo importante estava acontecendo, pois o estádio está absolutamente lotado. Inicialmente espantados com o absurdo da situação, os espectadores presentes explodem em aplausos e assobios tão logo o herói apareça, triunfante, na porta do avião salvo. Peito estufado, um sorriso de saudação e o prazer do sucesso: isso de não alardear os milagres realizados é coisa de antigamente, agora já se pode até gozar a delícia de ser abraçado pela massa em êxtase. Superman Superstar.

Um líder espiritual que também se pense como espetáculo. Nesse paradoxo também está expressa a relação ambígua que mantemos com a idéia do super-herói. Impedir um desastre de avião, segurar no peito os tiros de um maníaco, interceptar um carro desgovernado, isso tudo admitimos a um super-ser. Seus ensinamentos da bondade são todos eles transmitidos através da ação, mas em escala menor, em momentos particulares onde sua atuação é cabível.

Numa cena logo no começo de "Superman - O Retorno" vemos o recém-chegado Clark Kent sentado em frente à tevê de sua casa, a mãe adotiva preparando algo para ele comer. Ao mudar de canal, se sucedem na tela imagens dos conflitos mundiais, guerras no Oriente, tragédias sociais africanas, atentados no Primeiro Mundo, violência no Terceiro, e mãe e filho trocam um olhar despido de qualquer esperança, pois sabem que ali, naqueles eventos que o telejornal noticia, não há Superman que possa intervir. Eis a ambigüidade fundamental do herói deste filme: alienígena adotado pela Terra, rapidamente humanizado (pela aparência, pelos sentimentos humanos que têm, pela necessidade de se misturar àqueles que deve proteger), salvador do cotidiano, o super-homem tem plena consciência de que a força deste lugar que o acolheu é muito maior que a sua própria, e que contra a vontade dele é impossível lutar. Diante da História, o nosso Superman é impotente.

  
Foto: Divulgação
  
É esta a medida do sentimento do herói por este nosso planeta. Espalhar boas ações, e assim talvez convencer a humanidade a fazer o mesmo, mas sempre reconhecendo que não há reversão da rotação da Terra possível num tempo tão sombrio quanto este. Há que, então, se preservar o direito do planeta caminhar com suas próprias pernas, garantir sua existência e trabalhar para sua transformação, mas, acima de tudo, defendê-lo de agressões que impeçam a História de seguir seu rumo natural, guiada única e exclusivamente pelo que a humanidade faz dela. Numa dessas, um tipo desumano como Lex Luthor já começa perdendo. Se sua maldade central é justamente construir um outro planeta por cima deste já existente, criar continentes inteiros e assim inundar tudo o que estiver em volta, matando bilhões de pessoas, isso se torna simplesmente intolerável. Superman cumpre sua via crúcis, invade o domínio do vilão, e nem se importa que ele seja constituído de kryptonita, a única coisa capaz de fazê-lo perder as forças. Se for preciso morrer para manter seu lar adotivo vivo, que assim seja feito. Curioso é que em nenhum momento do filme, nem mesmo nas piores situações, o homem de aço se pergunte algo como o "por que me abandonaste?". Seu pai morreu, ficou só o holograma e a voz recuperada num cristal. Sua solidão pode até se aliviar com a descoberta de um igual, num desdobramento pai-e-filho tão bonito e emocionante que deixaria "O Código da Vinci" corado de vergonha. Mas somos nós, os que ele salva diariamente, e também nós, os que seguimos como espectadores devotos desta figura incrível, que não podemos abandoná-lo.

Aquela última imagem, o olhar direto para a câmera, direto para nós que o vemos, é como a reafirmação de sua existência. Seguimos nós, sabendo que não há heroísmo que nos livre da responsabilidade de transformar o mundo. Segue ele, ficcional e tão surpreendentemente verdadeiro, como numa música do Belchior, cumprindo seu duro dever e defendendo seu amor, que é a nossa vida.


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