Ética e Razões de Voto em 2006




Antônio Carlos Medeiros
é administrador e cientista político

E do desencanto nasce o realismo e o pragmatismo. E do pragmatismo germina o individualismo, a negação da política como agregação do bem comum. E, fechando o ciclo, da negação da política como possibilidade da busca do bem comum, vem a opção majoritária pela busca do interesse imediato, material, concreto.

A ética do sonho, dos símbolos, das mudanças, das transformações sociais, vai ficando para trás. Hoje, nas eleições de 2006, deve predominar a ética do individualismo possessivo elevado à enésima potência.

A majoritária ética do individualismo leva às razões de votos utilitaristas. Sai o sonho, entra o feijão. Entra a cobrança por realizações concretas (a segurança, a água, a energia, o preço da cesta básica, a moradia, e por aí vai).

O perigo é a sociedade cair na real demais a ponto do país ficar sem projeto e sem idéias. A boa notícia é que a ética do individualismo poderá acionar o gosto pela cobrança dos resultados e das promessas. Só o tempo dirá onde estará o equilíbrio aí - entre o extremo da ausência de projeto de país e o extremo das realizações sem projeto coletivo de nação, ao Deus dará, ao sabor exclusivo das forças de mercado.

Até onde a vista alcança, o panorama parece ser este, em termo da ética dos eleitores nas eleições de 2006. O candidato que não mostrar serviço, pode dançar. As exceções vão, como sempre, confirmar a regra.

Quanto às razões de votos, deve ficar minoritária à razão ideológica, programática. Assim, as categorias esquerda, centro e direita serão muito menos relevantes. O agir deverá ser mais importante do que o pensar. O fazer, mais importante do que o prometer.

Fatores objetivos é que deverão predominar. Aí, haverá espaço tanto para o clientelismo de resultados, quanto para a lógica da vizinhança e da comunidade na decisão final do voto. Quem chegar prometendo, vai ser rechaçado, como na música de Zeca Pagodinho.

Razões partidárias? Deverão ter menor influência ainda. Deverão prevalecer mais ainda as personalidades, só que desta vez personalidades menos midiáticas e mais realizadoras.

Se o voto não fosse obrigatório no Brasil, provavelmente teríamos um alto índice de abstenção nestas eleições.

Eleições da crise de auto-estima. Da dissonância cognitiva. Da "aceitação cínica" a tudo que está acontecendo, como constatou Fernanda Montenegro ao comentar a tolerância do público às vilanias do seu personagem Bia Falcão.

Com grande pessimismo, Zuenir Ventura assinalou que o país retratado em 1989 pela heroína Odete Roitman de Gilberto Braga, "era hipócrita". E que o país retratado agora pela vilã Bia Falcão, de Silvio de Abreu , "é cínico, sem vergonha" ( O Globo , 12/07/06 ).

É neste contexto que se moverá a encenação da peça das eleições de 2006. O que virá delas? Depende de Sua Excelência, o eleitor.