É com muita satisfação que acompanho nesses últimos dias a retomada, pelos descendentes de escravos do norte do Espírito Santo, do território ocupado e explorado pela transnacional Aracruz Celulose, há quatro décadas. Me orgulho não só pela coragem e união dos quilombolas, em busca da tão sonhada liberdade e dignidade de seu povo, mas também porque marca o início de uma luta árdua e necessária, que é a reconquista dos 50 mil hectares dos negros que a Aracruz ocupa desde a época da ditadura militar.
O movimento começou com a derrubada de eucaliptos numa área de 30 hectares, em Linharinho, onde existe um antigo cemitério dos negros. Uniram-se a esta ação 500 pessoas, a maioria quilombolas, mas não foi menos expressiva a participação de outras vítimas da empresa, os índios, que também retomaram 11.009 hectares explorados pela Aracruz, e aguardam a homologação do território pelo Ministério da Justiça.
Linharinho é parte do território quilombola de Sapê do Norte, formado por Conceição da Barra e São Mateus, onde existiam centenas de comunidades na década de 70, e hoje restam apenas 37, ilhadas pelos extensos eucaliptais. Sem alternativas de sobrevivência, as famílias foram reduzidas drasticamente, de 12 mil para 1,2. Muitos foram para as cidades, onde foram obrigados a conviver com a miséria e prostituição.
As terras plantadas com a monocultura do eucalipto que os descendentes de escravos tiveram que abandonar são terras devolutas, ocupadas historicamente pelos quilombolas. No antigo cemitério, a lembrança de personagens como Negro Rugério, Silvestre Nagô, Clara Maria dos Pretos do Rosário, Viriato Cancão de Fogo, Pai Joaquim Vitória, Mãe Diolinda, Mãe Didi e Constância de Angola. Todos lideranças da luta contra a escravidão negra e que conquistaram a liberdade com a formação dos quilombos.
E embora a empresa insista em afirmar que a área é sua, Linharinho já foi reconhecido como quilombola em estudos realizados pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), publicados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a quem cabe identificar, titular e devolver as terras aos quilombolas.
Mas nesta segunda-feira (31), após a retirada da madeira e o plantio de espécies nativas e frutíferas da mata atlântica, os negros foram surpreendidos por uma ação de reintegração de posse à Aracruz Celulose, levada por um oficial de justiça e policiais. O que considero mais um ato irresponsável da Justiça estadual, que nem sequer tem competência para julgar processos que envolvem os quilombolas, já que são amparados por lei federal.
Com a decisão, os negros aguardam até esta quinta-feira (3), quando se reúnem para discutir quais providências tomar. Até lá, a área permanece desocupada. Adiantam, porém, que não desistirão da luta. Este é só o começo da conquista de todo seu território. Esperançosa, fico na torcida.
Que esta ocupação leve o governo federal a acelerar a titulação das terras dos quilombolas, finalmente. E não permita mais que a Aracruz Celulose tente atrasar de toda maneira os processos, com suas contestações.
A área retomada é santa e sagrada aos quilombolas.
O primeiro passo foi dado.
Ficamos aqui com a sensação de dever cumprido.
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