"É mais fácil comprar um deputado do que fazer um."
A frase, de autoria do detento Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, é um dos mais contundentes retratos da derrocada das nossas instituições. Ou, como gostam de dizer os cientistas sociais, do esgarçamento do tecido social brasileiro.
Não que a frase, em si, seja considerada grande novidade por qualquer brasileiro medianamente informado. De jeito nenhum. Já passamos pelo "rouba mas faz", pelo "ruim por ruim, vote em mim" e por outros absurdos, ao longo da nossa caminhada rumo ao abismo.
O próprio Camacho, tido como líder do antes inimaginável Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa que aterroriza São Paulo e desmoraliza a polícia e a Justiça do Brasil, já brindou a sociedade brasileira com outras "pérolas" macabras.
Interrogado recentemente por uma CPI, Marcola peitou o deputado que presidia os trabalhos, nada menos que um delegado da Policia Federal. No calor de uma discussão, o deputado alteou a voz, no que foi imediatamente contido por Marcola, no grito, e instado a falar baixo. Chamado de ladrão, pelo parlamentar, retrucou imediatamente, com total desassombro:
"E os deputados, o que é que fazem? Não roubam? Roubam pra c......, meu!"
O deputado limitou-se a guardar a viola no saco, baixando a voz, e o depoimento prosseguiu.
Sem contar que o assaltante, traficante e assassino colocou uma tremenda saia justa na polícia paulista, ao afirmar que, sim, as autoridades negociaram com ele o fim das atrocidades cometidas pelo PCC em maio, quando os presidiários de São Paulo se rebelaram, sob o comando do PCC, e escreveram páginas de um inferno urbano que sequer um diretor de filmes de desastres de Roliúde, em sua habitual histeria, ousou sonhar.
Lamentável. Lamentável que alguém diga coisas tão terríveis a respeito dos membros de um Parlamento e que tudo fique por isso mesmo. Lamentável que autoridades negociem com bandidos. Lamentável que PT e PSDB tenham coragem de se envolver numa patética disputa eleitoral em torno da necessidade de enviar-se ou não a Guarda Nacional a São Paulo, para tentar conter o PCC.
Lamentável, claro, mas nada que não se possa compreender, nesta País que disputa cabeça a cabeça, com Serra Leoa, o índice de mais perversa distribuição de renda do mundo; desta terra em que o cidadão trabalha quatro meses por ano para arcar com uma das mais cruéis cargas tributárias do planeta; deste Brasil das elites ensandecidas em sua pilhagem desenfreada, em sua insensibilidade histórica, em sua estúpida incompetência.
Aliás, tem mais uma do Marcola. Durante seu depoimento à CPI, um deputado pergunta qual o seu livro preferido.
"Assim falava Zaratustra", responde o interrogado. Um deputado lhe pede que soletre: "Za-ra...". Um outro, para tentar diminuir o prejuízo, constata, em tom de pergunta, referindo-se ao filósofo alemão:
"Nietszche?"
E Marcola, sem pestanejar:
"Sim, Nietszche."
O mais duro de tudo isso, cara leitora e caro leitor, é que se a gente bobear acaba idolatrando um bandido por sua macheza, por sua coragem de dizer, de público, o que todo brasileiro vem dizendo, em particular, faz muitos anos. Isso seria horrível, mas tem perigo de acontecer.
Tem perigo, sim, tem perigo.
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