Toda manhã, enquanto aqueço a água do café, jogo os restos do jantar para os passarinhos. Pela vidraça assisto à festa.
Vêm muitos pardais, um ou outro joão de barro, a corruíra, o sabiá. Esta manhã veio um bentevi, pouco assíduo por aqui.
Pousado no muro, o pássaro de peito amarelo fica olhando a pardalama que se atira alvoroçada sobre a bacia velha - cheia de arroz dormido. Sua cabeça preta se move sem parar, olhinhos à espreita, premeditando um salto - para dentro ou para fora do pátio? Nunca se sabe para onde vai saltar um passarinho. Os animais alados parecem em permanente estado de susto.
De repente o bentevi dá um rasante e rouba o arroz do bico de um pardalzinho. Bicho senvergonha. Poderia servir-se do recipiente onde está a comida, mas parece que só sabe se alimentar assim, tirando do bico dos outros, em pleno vôo, como as aves de rapina ou o martim-pescador, que colhe peixinhos na flor d'água. Aparentemente incapaz de servir-se na bacia, o bentevi passa alguns minutos roubando a comida do povo-pardal. Depois limpa o bico num galho de aroeira e se retira.
Inevitável associar o comportamento dos bentevis ao de certos seres humanos. A natureza é sábia, dizem os mais antigos, convencidos de que somos todos regulados pela lei do mais forte. Sem dúvida, o bentevi não tem nada de bonzinho. Qual sua ética? A dos predadores, naturalmente.
Lembro então que certa vez, em visita a um apiário em Barretos (SP), nos anos 1980, o apicultor disse que tinha bronca dos bentevis. Por que?, lhe perguntei. Ele me levou aos fundos para mostrar como faziam esses pássaros para se alimentar. Havia ali um bentevi pousado num mourão. Quieto, observava o vaivém das abelhas. De vez em quando fazia um sobrevôo e catava no ar uma abelha. Em seguida voltava ao seu posto de observação. O detalhe é que o pássaro só caçava as abelhas que chegavam, nunca as que saíam. Preferia naturalmente aquelas carregadas de pólen ou néctar: mais lentas, mais pesadas e mais nutritivas, certamente. Bicho danado. Depois de encher o papo, o bentevi batia asas para longe, deixando o lugar para outro irmãozinho igualmente faminto e faceiro. E assim rolava a vida naquele apiário paulista. O apicultor já estava conformado com aquelas perdas praticamente inevitáveis.
Serão mesmo inevitáveis os vis bentevis?
Cuidado, abelhas-operárias, pardais-eleitores, amigos-leitores: na primavera eleitoral que se avizinha, os bentevis estão de olho em todos vocês, loucos pra papar seu voto.
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