A chuva que castigou a Grande Vitória durante toda a madrugada e manhã desta sexta-feira (4) é um alerta para medidas preventivas que precisam ser tomadas antes do início do período de tempestades, que ocorrem principalmente no verão. Pouco volumosa, mas ininterrupta, a chuva causou alagamentos, desabrigou cerca de 20 pessoas na Serra, engarrafou o trânsito e cancelou vôos.
Os problemas do trânsito foram mais graves na parte da manhã. O especialista em Planejamento Urbano Helder Gomes explica que a geologia de Vitória é muito acidentada e que sua ocupação ocorreu de forma desordenada. Toda a metrópole foi desenvolvida desta forma, em áreas acidentadas ou de baixadas, muitas vezes aterradas. As baixadas estão praticamente no nível do mar e são cortadas por uma série de canais que não têm para onde escoar seu volume e acabam por inundar os bairros que cortam.
Além disso, muitas áreas, principalmente em Vitória, estão sobre aterros feitos em cima de mangues, para onde a chuva ia antes de sua impermeabilização provocada pelo asfalto, calçadas e edificações. O resultado se mostra através de alagamentos, trânsito caótico, risco de morte e problemas de saúde para a população.
Nas áreas acidentadas os problemas se concentra nas encostas, que após período prolongado de chuva ficam sujeitas a deslizamentos e desmoronamentos de terra. De acordo com Gomes, a região metropolitana já se estabeleceu de forma equivocada e agora é preciso promover ações que demandam grandes investimentos governamentais para minimizar os efeitos dos erros do passado.
Ele ressaltou que na ilha de Vitória já foram desenvolvidas algumas destas ações que reduziram as grandes tragédias nos morros ocorridas na década de 80 e início da década de 90. Entretanto, ainda existem áreas críticas que precisam de atenção. "Vila Velha possui projeto para a drenagem dos canais que cortam o município e em Vitória é mais complicado, porque na maioria das vezes é preciso tirar a pessoa da área de risco e colocá-la em uma casa popular", disse o professor.
Negro amanhecer
A cidade amanheceu escura, com ruas e avenidas inundadas e casas com risco de desabamento, isso apesar do pouco volume de chuva. Esta chuva ininterrupta é perigosa para as encostas, já que encharca o solo e pode provocar deslizamentos caso continue por vários dias. Esse fenômeno é causado pelo encontro de uma massa de ar frio que rompeu uma outra massa quente que predominava há quase um mês na região. O encontro produz uma frente fria estacionária que permanece na região por vários dias.
Cerca de 20 pessoas tiveram que ser retiradas de suas residências em Novo Horizonte, na Serra, devido aos alagamentos que atingiram suas casas. Uma casa apresenta risco de desabamento. A avenida Central de Laranjeiras permaneceu inundada por toda a manhã e em Cariacica as ruas do bairro Nova Brasília ficaram alagadas.
Em Vitória, a recém-ampliada avenida Norte-Sul ficou completamente alagada pela manhã, atrapalhando a vida de quem vinha da Serra e de Jardim Camburi via praia.
No aeroporto Eurico Salles dois vôos foram cancelados, um que viria de Brasília e outro que decolaria para São Paulo. Outros cinco permaneciam com atraso no início da tarde, todos com destino ao Rio de Janeiro e São Paulo. O problema começou na noite desta quinta-feira (3), quando um vôo do Rio de Janeiro não pôde pousar em Vitória, o que criou efeito cascata. Vôos não chegam e por conseqüência atrasam as saídas. O saguão do Eurico Salles permaneceu lotado durante toda a manhã e muitos passageiros passaram a noite no aeroporto.
Em Vila Velha a mesma situação de sempre. Ruas e avenidas alagadas na região da Rodoviária de Coqueiral de Itaparica e avenida Carlos Lindemberg. As defesas civis dos municípios estão em alerta e durante todo o dia fizeram o monitoramento da situação nas ruas das cidades.
De acordo com a coordenadora da Defesa Civil de Vila Velha, Edjane Moisés de Lima, ainda não houve nenhuma chamada para emergências no município e os alagamentos não foram de grandes proporções, mas os moradores dos bairros Alvorada, Alecrim, Argolas, Aribiri, Ataíde, Brisa Mar, Cobi de Cima, Dom João Batista, Glória, Ilha da Conceição, Ilha das Flores, Jaburuna, Nossa Senhora da Penha, Paul, Pedra dos Búzios, Praia da Costa, Rio Marinho, Sagrada Família, Santa Rita, Terra Vermelha, Vila Batista, Vila Garrido e Zumbi dos Palmares devem ficar atentos, já que estas áreas têm risco de alagamentos ou deslizamentos.
Em Cariacica os bairros com risco são Nova Brasília, Itacibá, Novo Oriente, Sotelândia, Oriente e Valverde. São áreas propícias à alagamentos ou deslizamentos. O coordenador da Defesa Civil de Cariacica, Jarbas Mota Siqueira, informou que o município tem tendência para alagamentos e confirma os argumentos do professor Gomes, atribuindo a situação à ocupação desordenada que foi feita nas áreas de risco.
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