Começa a projeção, na tela preta aparece o anúncio que o roteiro foi realizado com o apoio da Agência Nacional de Cinema; depois se sucedem os símbolos das leis federais de falso mecenato, abrindo caminho para o rosário de logomarcas das empresas brasileiras que contribuíram para a realização do filme e que assim se isentaram de pagar impostos.
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Foto: Divulgação
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O silêncio e o fundo preto são uma espécie de prólogo solene para a mais profana das fontes de financiamento, e tomando todo o espaço chega o símbolo conhecido da Warner Brothers, um dáblio amarelo e azul ("canarinho, portanto", diria Sérgio Rezende) que denuncia o primeiro erro de
"Zuzu Angel": não há nada em seu corpo financeiro, artístico ou moral que justifique os milhões de dinheiro público captados e gastos em seus sofríveis cem minutos de duração.
Os nomes famosos no elenco, a campanha publicitária espalhada pelo país e veiculada na televisão, as centenas de cópias distribuídas pelos cinemas, a narrativa de apelo fácil, a estrutura dramática programada para que qualquer criança de 12 anos possa entender o que se passa, tudo isso dá à "Zuzu Angel" a certeza do sucesso comercial, e estes elementos todos são afiançados pela presença do grande estúdio americano na produção. Posto que talvez o erro não seja propriamente do filme de Sérgio Rezende, mas da legislação caduca que permite que produtos dessa natureza continuem mamando nas fontes públicas.
A culpa no cartório de "Zuzu Angel" é outra. Há um discurso vendido pelo personagem do filho ("sou um militante político, socialista"), pelo qual é preso, torturado e morto. A mãe estilista compra essa idéia quando percebe o tamanho da ferida que seu filho tentava combater.
Sérgio Rezende já desde o começo comprara as crenças de Stuart, emoldurando sua presença no filme de uma aura heróica inquestionável. Em sua primeira intervenção revolucionária, o personagem de Daniel de Oliveira, acompanhado da namorada e companheira de luta, explica à mãe que o confronto com a polícia do qual participara no dia anterior e que o tornara notícia de jornal, com direito à foto na capa e tudo, tinha como objetivo combater a dominação imperialista norte-americana, financiadora do regime opressor e, assim, grande ameaça à soberania brasileira e à sonhada retomada da democracia.
Ora, é impossível servir dois senhores ao mesmo tempo. Se ataca o imperialismo ianque nesse discurso de perfumaria de esquerda, Sérgio Rezende não tem problema nenhum em fazê-lo parceiro na produção de seu filme. Daí a falta de pudor em usar a lei ultrapassada para arrancar dinheiro público, daí a inconsistência com a qual o filme sempre se depara, entre a falação política quase didática e a falta de postura para cuspi-la com alguma propriedade: o primeiro e grande erro de "Zuzu Angel" é, na verdade, não ter a mínima vergonha na cara.
E de um filme desavergonhado se pode esperar tudo. Sua fragilidade é tão evidente que a exposição dos equívocos vai sendo anunciada pela própria trama, num tiro dialético dado no próprio pé.
Zuzu é recebida por um general que vai conduzi-la pela prisão onde supostamente seu filho estaria preso, mas muito cedo a estilista percebe a armação dos milicos. Lençóis limpos, brancos e esticados nas camas dos presos, todos eles saudáveis e bem alimentados, sem marcas de tortura, e o diagnóstico é gritado por Patrícia Pillar: "isso tudo é uma farsa!". E não é exatamente esta a operação que faz da reconstituição política e histórica de "Zuzu Angel" um grande conto da carochinha?
De todas as relações possíveis a se estabelecer com esta personagem tão rica, Sérgio Rezende escolhe a mais óbvia e burra, tornando o filme um grande desfile de moda, cheio de "beleza" e "elegância".
Os agentes torturadores aparecem trajando ternos pretos impecáveis, com gravatas de seda que brilham acintosas sob a luz do sol. Maus, muito maus, e por isso vestidos de preto, mas ainda assim, por que não poderiam estar bem vestidos? Mesma relação estabelecida no tribunal forjado pela ditadura para julgar Stuart, quando era sabido por todos que o rapaz já estava morto há muito tempo: militares com fardas novas, jurados elegantes, uma enorme cortina vermelha de veludo no fundo destacando a gravidade daqueles anos de chumbo ("um vermelho que lembra o sangue derramado").
E se fosse só o ego gigantesco da direção de arte, sempre querendo chamar atenção para seu próprio talento (recorrência nos filmes de Rezende, todos eles grandes maquetes mortas de um universo quase irreal, não importa se o povoado de Canudos ou o Rio de Janeiro dos anos 60), o estrago seria ainda contornável. Mas a idéia de ridicularizar qualquer sopro de verdade e trazer tudo para o mais descarado artifício parece uma orientação geral.
Não há vida possível dentro dos diálogos engessados e artificiais forjados pelo roteiro, não há ator que consiga respirar sendo obrigado à seguir aquela cartilha restrita. Não há confiança nenhuma no suporte usado, no cinema, arte da imagem e do som; tudo precisa ser dito literalmente, explicado pela palavra, ela sim soberana sobre qualquer outro elemento. Ignora-se a capacidade dramática de um movimento de câmera, de um corte, de uma expressão corporal, e quando elas são tentadas - pensemos na cena de tormento mental de Zuzu no quarto de hotel em Minas, quando uma tempestade mostra um relâmpago digital no fundo da janela, ou em toda seqüência doentia do contato da estilista com o delator que a ajudará no caso do filho, em seu quarto fétido e tão marginal - parecemos estar diante do filme de um diretor que nunca viu outros filmes e que leva aquilo tudo como se fossem descobertas geniais.
O incômodo maior, no entanto, passa longe do que este "Zuzu Angel" significa por si mesmo, já que é certo que em poucos meses o filme estará esquecido, e que qualquer história do cinema brasileiro escrita daqui para frente não enfrentará dilema nenhum ao ignorar completamente sua existência e a de seu diretor.
O incômodo se refere ao fato de que, mais uma vez, estivemos diante de uma tentativa de representação do período da ditadura no cinema e, mais uma vez, fracassamos - e ao fracassar, quem sai vitoriosa é a memória do regime odioso.
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Foto: Divulgação
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O Brasil é um dos únicos países democráticos que não julgou e condenou os responsáveis pelo totalitarismo que um dia nos dominou. Essa mistura de medo e covardia que impede o confronto com os agentes da tragédia do passado transfere-se para a ficção, e faz com que não tenha sido feito ainda, desde a redemocratização, um grande filme sobre o tema. Tentou-se muito, e no mar de mediocridade que vai de "Pra Frente Brasil" a "O Que é Isso Companheiro?" e "Quase Dois Irmãos", destacam-se isolados "Ação entre Amigos", de Beto Brant, e "Cabra-Cega", de Toni Venturi, que ainda assim são pequenos demais perto do tamanho daquilo que tentam dar conta.
É preciso enfrentar esta mancha com força, resolvê-la em nossa memória de uma vez por todas, e para isso o cinema (e todas as outras artes, igualmente negligentes) pode ser uma boa arma. Mas até que essa disposição se manifeste para além dos pedidos particulares de indenização por dores sofridas durante a repressão, até que isso se torne uma exigência coletiva, uma indenização moral de um país que se pergunta como está do jeito que está sem se perguntar de onde isto tudo veio, até lá talvez mereçamos filmes tão ruins quanto "Zuzu Angel", e devamos mesmo pagar por eles sem reclamar.
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