Uma disputa entre personalidades




Antônio Carlos Medeiros
é administrador e cientista político

Com os partidos políticos em frangalhos, a disputa das eleições presidenciais brasileira mostrou-se, até agora, uma disputa entre personalidades.

Guerra de carismas. A lembrar-nos da chamada "dominação carismática" de Max Weber. Onde o líder carismático retira a sua fonte de poder do seu carisma, dos seus atributos pessoais e da sua capacidade de comunicação direta com a as massas.

O líder atua sem passar pela mediação dos partidos políticos, ou de quaisquer outras instâncias orgânicas de mediação política. Aqui no Brasil, estes já podem ser prováveis efeitos do chamado "Presidencialismo de Animação", expressão cunhada recentemente por Renato Lessa para designar a evolução mais recente do nosso "Presidencialismo de Coalizão".

Para Lessa, no Presidencialismo de Animação, dadas as necessidades de legitimação permanente dos presidentes, o presidente estabelece com o povo relações diretas de "animação", tendendo a tornar-se um representante de si mesmo e da "persona" que lhe cabe assumir nesta relação direta e midiática com o povo. Este fenômeno parece estar desaguando agora nos comportamentos dos principais candidatos nas eleições presidenciais de 2006.

Voltando, entretanto, à nossa citada disputa de personalidades: ela começa pelo chamado fenômeno Heloísa Helena. Que projeta a figura guerreira e carismática da senadora Heloísa Helena, em busca da captura do votos das classes A e B. Uma figura com grande capacidade retórica e sem a retaguarda de um partido político organizado e enraizado.

Com um estilo agressivo, a senadora conquista um espaço político importante, falando diretamente às parcelas dos eleitores que se desencantaram com o PT. Um estilo, entretanto, que não é suficiente, até agora, para captar a decisão final de voto. E que guarda um potencial grande de volatilidade - perto de 30% - , como indicam as pesquisas de opinião. É que o eleitor parece querer dizer que carisma só, nestas eleições, não vai ser suficiente para ganhar as eleições presidenciais.

A presença do carisma tem a sua manifestação mais cabal na re-candidatura do presidente Lula. Na medida mesmo em que o PT encolheu, o enorme carisma de Lula está produzindo, na política brasileira, o fenômeno do Lulismo.

Com uma enorme penetração no imaginário nacional, o Lula do fenômeno do Lulismo ganha legitimidade para além do PT. Tornou-se ainda maior do que já era em relação ao PT.

Entretanto, mesmo assim, o Lulismo, por si só, não deverá ser suficiente para reeleger o presidente Lula. As pesquisas ainda indicam aproximadamente 38% de eleitores indecisos. Além disto, a rejeição de Lula em São Paulo continua muito alta: 39%. Assim como, também está alta a sua rejeição no Distrito Federal: 43%. Sem falar que, no Rio Grande do Sul, Alckmin (com 36%) está na frente de Lula (com 30%).

Ou seja: em três colégios eleitorais (São Paulo, Distrito Federal e Rio Grande do Sul) onde o PT e Lula tinham, tradicionalmente, raízes fortes, o Lulismo ainda não virou o jogo a favor de Lula.

Todas as análises e pesquisas apontam para a necessidade de ganhar o eleitor não apenas pelo carisma, mas também, e principalmente, pela demonstração da capacidade de realizar e melhorar a vida do eleitor. Lula tem esta possibilidade. Mas vai precisar ainda demonstrar que pode garantir as conquistas das classes C, D e E e avançar em conquistas para as classes médias.

Nestas eleições, depois de uma sucessão de eleições plebiscitárias e eletrizantes, parece estar mais presente a necessidade de uma mistura de carisma ( "história de vida" ) com resultados ("capacidade de realizar"). Um não deverá poder vir sem o outro. O eleitor parece ter cansado de esperar a chegada de um Messias e de inchar as suas expectativas.

E é aqui que parece residir, até agora, a dificuldade do terceiro candidato competitivo, o ex-governador Geraldo Alckmin.

Com um grande "déficit" de carisma, o que o levou a ter a menção de "chuchu" em várias reportagens na mídia, Alckmin não está conseguindo ainda "compensar" este déficit com demonstrações cabais de que tem um programa que faça a diferença.

Paradoxalmente, não é uma personalidade carismática, mas procura entrar na disputa de personalidades em que se tornaram as eleições com a imagem de personalidade competente e realizadora.

Como esta imagem ainda não colou no eleitorado, e como Alckmin também está navegando em estrutura partidária que se fragilizou um pouco de 2002 para cá, a sua candidatura não está decolando na devida e necessária intensidade.

Tudo somado, o perigo destas eleições presidenciais é o de a disputa resvalar pelo voluntarismo, pela guerra retórica e de egos, e pela destruição das pontes de diálogo futuro entre as forças políticas em disputa.

E, aí, mora um perigo. Já sendo um mosaico político complexo e heterogêneo, o Brasil apresenta baixa convergência política entre as forças políticas. Que poderá ficar mais baixa ainda.

Ora, como enfrentar os graves desafios futuros - ajuste fiscal do Estado; reformas estruturais; choque de educação; reformas microeconômicas - sem convergência?

É por isto que o professor Albert Fishlow acertou na mosca: o Brasil precisa de um Plano Real para a política. Segundo ele, uma coisa é conseguir a volta da democracia, outra é a democracia permitir que os problemas do país sejam tratados de maneira contínua: "se não se resolver a questão política, não se conseguirá um caminho contínuo para o desenvolvimento, a aprovação contínua de medidas necessárias para o país crescer" (O GLOBO, 31/07/06).

Iremos, mais uma vez, perder o Bonde da História ?