Fragmentos de um povoado feliz





Tavares Dias


Da feliz comunhão entre o verbo e a música, nasceu Bispo Filho, de mãe professora e pai músico.
Por sua conta e risco, houve por bem o poeta, acertadamente, acrescentar, ao cadinho de sua alquímica criação, a química, a matemática, a botânica, as artes plásticas, a política (não-engajada), a religiosidade e a cultura popular. Ao que parece, visto assim à distância, é principalmente sobre esses pilares que se estruturou e se desenvolveu o rico universo do qual nasceu esse seu novo livro, Povoado (Scortecci, São Paulo, 2006).

Recomendação importante, enquanto ainda estamos no começo da prosa: se você é uma dessas pessoas que cometem versinhos e se perguntam se são mesmo poetas, conforme acontece comigo também, tome cuidado para que os versos de Bispo Filho não o (a) façam desanimar.

Sim, porque a intimidade desse poeta, jornalista, escritor, compositor, multiinstrumentista, teatrólogo, artista plástico e professor Bispo Filho com a língua de Camões é tão grande que é natural que a gente se sinta um tanto humilhado, se a nossa auto-estima não estiver bem-regulada. O melhor a fazer é respirar, lembrar que cada um tem um estilo, e que em tese você e eu, na nossa simplicidade, também poderemos um dia fazer boa poesia. Ponto.

Feito isso, mergulhe sem temor no universo poético de Povoado. Deixe-se ir fundo, feito um pescador de pérolas, que as há em quantidade e qualidade inacreditáveis, ao longo dessa obra referenciada no "povoado" de São Raimundo, bairro de Governador Valadares onde nasceu e vive o poeta, mas poderia referir-se, como canto universal que é, a todas as aldeias e a todos os povoados deste mundo. Nova York incluída, claro.

A poesia de Bispo Filho vai aparecer diante dos seus olhos feito um caleidoscópio, feito um filme cuja edição privilegia a velocidade estonteante, fotogramas colados estreitamente, lado a lado feito dentes, taliscas de gaiola vazia e de portas abertas, feito casas geminadas vistas da janela de um trem em movimento.

Depois a velocidade vai se reduzindo, a associação imagética conduzida por maestra mão ralentando o filme, gerando reflexões, para de súbito outra vez acelerar, e outra vezes combinar sons e pausas, e sonoridades coloridas, como se numa partitura de Ravel.

Um poeta é grande quando sua poética possibilita ao leitor, sim, encontrar em seu trabalho traços de grandes mestres mas sem ficar só nisso. Assim, aos iniciados na poesia será possível rastrear em Povoado o cobre de Neruda; o ferro da Itabira de Drummond; o vegetal de Manoel de Barros; a indignação de um Gullar, de um Thiago de Mello. E ainda vestígios das incursões do poeta por Pessoa, Florbela, Pound, Byron, Bandeira, Quintana, Baudelaire, Rimbaud, Verlaine e tantos mestres mais.

Mas, fundamentalmente, e eis aí a diferença, o que pontifica, como deve pontificar e sói pontificar na obra de um mestre do jaez de Bispo Filho, é que o amálgama formado por tanta informação sabe a Bispo Filho, soa a Bispo Filho, é Bispo Filho. Para além de tudo e de todos. E, percebendo isso, é que a gente pode saber quando é que um poeta encontrou ouro, bamburrou, tornou-se único, não tomou pança, não passou batido pela pedra filosofal.

A poesia de Bispo Filho é um convite a reflexões, é uma viagem no tempo, é um hino ao amor, é um grito que veio para desafinar o coro dos contentes. E é poesia para se afinar, ombro a ombro, com o que de mais elevado já apareceu na poesia brasileira.
Bispo Filho, que durante quatro anos foi redator e editor assistente do jornal Brazilian Voice, da cidade de Newark, no Estado norte-americano de New jersey, e ensinou Álgebra, Botânica, Geologia e Literatura em escolas públicas do Estado de Massachusetts, também nos EUA.

Antes, o autor publicara Colosso Ciclone, poesia, em parceria com o jornalista e escritor Roberto Lima. Teve grande importância no movimento de renovação literária em Minas Gerais, inclusive por sua participação no movimento poético que gerou o folhetim Varal e o jornal Poetarte, no Vale do Rio Doce.

Para o teatro, Bispo Filho produziu A bicicleta; Palavras de acalentar muros; e O verde que diz. Atualmente, leciona Semiótica, Literatura e Estética na Universidade do Vale do Rio Doce (Univale), além de desenvolver pesquisas de cultura popular, sempre atento às manifestações folclóricas brasileiras.

Conforme informa a orelha de Povoado, em texto de autoria de Marciléia Salles de Oliveira, a poesia de Bispo Filho vem sendo nomeada pela crítica como "renovadora e vigorosa" - dois adjetivos até que econômicos para tão esfuziante poesia.
Para não ceder à tentação de desvelar demasiadamente os encantos do livro para o leitor, vai aí apenas um brilhante da lavra desse mestre brasileiro e mineiro - uma importante lição contida no poema Metapoema:

"Ser poema de vime, de choro de salgueiro baralhado em alegria.
Ser navio armado, sutil e vazio na chegada e tripulado na partida.
Ser minério essencial sem a anatomia das pedras,
pastorear cacos estupendos e fragmentos de espelhos.
Eis a arte do poema."


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