Vitória (ES), edição de 07 de agosto de 2006
 
Diretora da Fundação Palmares
vê no ES reocupação de quilombo

Ubervalter Coimbra


Os descendentes dos escravos negros no Espírito Santo que reocuparam parte da área de um dos antigos quilombos em Linharinho, no município de Conceição da Barra, no norte, receberão a diretora de Proteção do Patrimônio Afro-Brasileiro da Fundação Cultural Palmares, Bernadete Lopes da Silva, nesta sexta-feira (11). Esperam medidas para assegurar seu território.

A ocupação foi no ultimo sábado de julho. Imediatamente após, a Justiça Estadual determinou a "reintegração da posse" à Aracruz Celulose. A empresa tomou as terras dos quilombolas há quatro décadas e as explora com plantios de eucalipto. Os negros da região não têm terras para trabalhar e nem para produzir alimentos.

A visita da diretora da Fundação Cultural Palmares foi confirmada nesta segunda-feira (7) por Elza Maria dos Santos, da Comissão Quilombola do Sapê do Norte. Os quilombolas esperam que, com a vinda da diretora da Fundação Cultural, possam contar com ajuda da Procuradoria do órgão para contestar a decisão da Justiça Estadual.

Relatou Elza Maria dos Santos que nesta segunda-feira não foi possível contato com o representante do Ministério Público Federal (MPF), como estava programado.

Ao MPF será entregue nesta terça-feira (8) carta pedindo providências contra a decisão da Justiça Estadual em relação à ocupação da área de Linharinho. Vão se basear no fato de que, por estatuto federal, a Justiça Estadual não pode julgar processos sobre os quilombolas.

A reocupação de Linharinho foi realizada por cerca de 500 pessoas. No centro dos 30 hectares retomados existia um antigo cemitério dos negros que formaram os quilombos da região de Linharinho. A área faz parte de um território com 50 mil hectares dos quilombolas ocupados por empresas, à frente a Aracruz Celulose e fazendeiros.

Ao retomarem a área, os quilombolas fixaram uma cruz no antigo cemitério com o nome de alguns personagens enterrados no cemitério como o lendário Negro Rugério, conhecido por combater escravocatas.

Linharinho é parte do território quilombola de Sapê do Norte, formado por Conceição da Barra e São Mateus. O território recomeça a ser formado, e tem área de Linharinho de 9.542,57 hectares. A área retomada foi reconhecida como quilombola por estudos realizados pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

Os resultados da pesquisa já foram publicados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), na forma de Edital. Por lei, ao Incra cabe identificar, titular e devolver as terras aos descendentes dos escravos negros.

O trabalho de "identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes de quilombos" é obrigatório e deve ser realizado por determinação do artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias; do Decreto n. 4887 de 20/11/2003; e da Instrução Normativa n. 16/2004.

As pesquisas confirmaram que os negros foram forçados a abandonar suas terras: em Sapê do Norte existiam centenas de comunidades na década de 70 e hoje restam 37. Ainda na década de 70, pelo menos 12 mil famílias de quilombolas habitavam o norte do Estado: atualmente resistem entre os eucaliptais, canaviais e pastos cerca de 1,2 mil famílias. Em todo o Espírito Santo existem cerca de 100 comunidades quilombolas.


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