A tecla Enter não substitui a vida




Geraldo Hasse

Nem faz muito tempo - menos de uma geração, para falar a verdade. Talvez você ainda guarde na memória: foi na primeira metade dos anos 1990 que o computador pessoal passou a ser quase tão disponível quanto uma máquina de escrever. De repente, você deixou de datilografar e passou a digitar. Ambas operações são feitas com os dedos, mas quanta diferença.

A máquina de escrever, fabricada em série a partir de 1874 por um certo norte-americano chamado Eliphalet Remington, então fabricante de armas e máquinas de costura, depois aperfeiçoada pelo italiano Camilo Olivetti, muito mais tarde eletrificada pela americana IBM e também pela sueca Facit, está praticamente aposentada. Ainda é usada em algumas repartições públicas e escritórios privados, mas é um símbolo anacrônico.

Nos textos menos importantes, quando datilografava errado, você teclava o xis em cima do erro, lembra? Nas mensagens mais importantes, você tomava muitíssimo cuidado, pois um errinho banal podia significar ter de refazer tudo. Perdiam-se minutos preciosos, horas de trabalho nas tarefas datilográficas. A cesta de papéis vivia cheia de folhas amassadas. Mesmo quando as indústrias de materiais de escritório disponibilizaram a tinta branca, dita corretiva, era um saco ter de ficar apagando letras, às vezes palavras.

Lembra-se do stencium, a matriz de impressão do mimeógrafo, aposentado pelas máquinas de copiar - xerox, um dos grandes inventos do século XX! - e pelas modernas impressoras domésticas acopladas aos computadores pessoais? Apenas os bambas da datilografia eram escalados para datilografar stenciuns, lembra? Pois a matriz tinha de ser perfeita. Você ainda tem na memória o quanto valia o salário de uma estenodatilógrafa?

Sim, os tempos mudaram. O computador está para a máquina de escrever como o automóvel está para a carroça. Mais confortável e veloz, o computador oferece um teclado mais leve, silencioso e macio. Com muito mais opções. Algumas teclas você nunca usou, nem sonha usar. Tampouco sabe para que servem. Em compensação, algumas são essenciais. A tecla Enter, por exemplo, é uma espécie de sinal verde no semáforo da vida digital. Entretanto, não substitui a vida em si. Nem exime ninguém da responsabilidade inerente ao gesto de teclar Sim ou Não.

Sim, os tempos mudaram: agora você digitar. Agora, quando digita, você vai atropelando as teclas, sem cuidado, pois sabe que dispõe dos poderes supremos da tecla Delete. Ela simplesmente apaga erros sem deixar vestígios. Mas não se iluda pensando que essa tecla mágica valha para todas as situações. Não, no inconsciente coletivo da população jamais se apagará a palavra esperança.

Tenho certeza de que você vai se lembrar disso no próximo dia 01/10, quando for manipular o miniteclado do computador da cabine eleitoral. Antes de digitar a opção certa, você se lembrará de quantos milhões de brasileiros estão excluídos das benesses da Tecnologia. Depois de alguns segundos, você não terá dúvida em apertar a tecla que poderá nos levar mais rapidamente a um futuro melhor.


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