Vida de Imigrante - Nem Freud explica




Wanda Sily
Escreve direto de Miami - EUA


Os livros de auto-ajuda estão na moda. Enchem as estantes das livrarias, estoicamente se instalando no topo das listas dos mais vendidos, derrotando os romances de ficção, antes imbatíveis. Sinal dos tempos, quando todo mundo anda precisando de ajuda, e não importa de onde venha, há de ser muito bem-vinda.

Não muito tempo atrás, para fugir da monótona realidade diária, a gente mergulhava num romance bem grosso, com uma história de amor impossível, cheia de tragédias e lágrimas, sempre com um enredo inverossímil que no final... Bem, com poucas excessões, o final tinha sempre a punição para os maus e a recompensa para os bons. E o amor triunfava.

Mas livros de ficção já não bastam. A realidade está ficando difícil demais para ser enganada por essas amenidades escapistas. Hoje precisamos de algo mais concreto, remédio mais eficaz e direto. E aí surgem os livros de auto-ajuda, para nos ensinar a lidar com nossas neuroses e as do próximo.

Nascidos do caos, se alimentando das desgraças e das inseguranças alheias, eles têm receitas infalíveis para todas as necessidades e todos os tipos de problemas. Qual a razão de tanto sucesso? Nem Freud explica. Mas analisando os últimos títulos enfileirados nos pontos mais destacados das livrarias, vemos que não são tão prestativos quanto prometem ser.

Quero dizer, não fazem milagres. Embora se baseiem na atualidade desses tempos de celulares e i-pods, as soluções propostas - quando há alguma solução proposta - se limitam ao óbvio, ao que todo mundo está cansado de saber, mas não tem coragem ou força de vontade para pôr em prática.

E não conheço ninguém que resolveu seus problemas lendo um livro de auto-ajuda.

A começar pelos livros para perder peso, campeoníssimos entre os campeões, primeiros nas listas de vendas em qualquer lugar. São também livros de auto-ajuda, embora ocupem um nicho próprio pela quantidade de títulos disponíveis.

Mudam as teorias, as técnicas, os estilos e as receitas propostas, mas no fundo se resumem a uma só fórmula - comer melhor e fazer exercícios. Aliás, diga-se de passagem, os imigrantes têm taxas maiores de aumento de peso do que os americanos, um fenômeno ainda não explicado. Talvez os recém-chegados não se adaptem bem ao excesso de sanduíches da nova terra.

Auto-ajuda parece infalível no papel, mas a teoria na prática é outra. Está infeliz com o emprego, com o casamento, com os relacionamentos? Quer ganhar mais e trabalhar menos, conquistar alguém ou subir na escala social? Há sempre um título na praça que ensina como realizar seu desejo, por mais espatafúrdico que pareça.

E acreditamos em todos eles, porque viver é complicado e sempre esperamos ver aquela luz no fim do túnel. Se não tiver, fica tudo muito escuro.