Não há nada mais irritante do que o moderninho. Esse produto bizarro, híbrido de pai ausente do moderno com filho bastardo do pós-moderno, serve para qualificar tudo aquilo que se perde na esteira do contemporâneo como factóide do tempo, a cobertura super-atual que esconde o interior carcomido de arcaísmos, ou seu contrário, a saudade do tempo que passou como maneira de fugir do confronto com o hoje.
O moderninho está em toda parte, nos punks de boutique, nos seriados da tevê a cabo, nos brechós vintage, na música indie-pop e, claro, também no cinema. Daí que chamar "A Concepção" de moderninho, apesar de ajudar a compreender seu lugar dentro da cinematografia que se tem produzido no país, não deixa de ser uma ofensa, uma ofensa cega.
Os traços de afetação estão todos lá, muito evidentes: a câmera na mão como princípio estético (anterior ao ético), a granulação exacerbada, signo da sujeira, a narrativa de idas e vindas, as intervenções de letreiros, animações, montagem ágil "porque tudo no mundo de hoje é para ontem". O tema, acima de tudo o tema. A juventude classe média alta de Brasília, a cidade que não é, presa no tédio (com um T bem grande para você), que se reúne no hedonismo, na perda de identidade, na radicalização do espírito desenraizado.
Um grupo de personagens desses parece tornar obrigatória a roupagem moderninha, sob pena de parecer caretice seu tratamento por vias outras que não aquelas ditadas pelo seu próprio comportamento. Se esses traços indicam a apelação para esta idéia preguiçosa e covarde do lugar que temos no mundo, o que irá diferenciar o filme de José Eduardo Belmonte do produto de uma confusão entre tempo e espaço será justamente a disposição em embarcar nela, não como estratégia escapatória de quem se encontra diante de um problema em potencial (como representar a loucura sem adesismos automáticos ou julgamentos reguladores) e que, portanto, decide comprar a versão de seus protagonistas apenas porque é sempre mais bonito ser querido e fiel às vontades do retratado. A crença é anterior, e sua recíproca pré-requisito básico: o filme é tão concepcionista quanto Alex, Lino ou Liz. São da mesma geração, sentem os mesmos desejos, se arriscam com a mesma inconseqüência.
O estatuto dessa relação fica claro quando, na primeira aparição de X (Matheus Nachtergaele), ouvimos que, se não fossem pelas imagens que o grupo fizera do sujeito, nos vários filmes caseiros que realizam, talvez nunca fosse possível provar sua existência e sua influência sobre a vida de todos os outros. X só existe porque existe a imagem feita dele. Na falta do corpo, da convivência, da conversa ao vivo, a reprodução magnética do vídeo se transforma também em indício de materialidade. Por isso não havia nada de moderninho na granulação ou no tremor da câmera de punho.
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Foto: Divulgação
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"A Concepção", o filme e o movimento, existem porque existem imagens deles. Sujas, tremidas, confusas, limpas e até mesmo plácidas, se preciso, tão variáveis quantas foram as possibilidades que a vida dessas duas forças apresentaram. Essa devoção à imagem não é nova, e encontra correspondentes diretos em dois filmes com os quais "A Concepção" parece dialogar constantemente. O primeiro deles, "Sexo, Mentiras e Videotape" (dirigido por Steven Soderbergh em 1989) é uma espécie de síntese de todo o deslumbre que a tecnologia do vídeo ainda provocava no instante de sua popularização. Ali, a imagem magnética era tomada como espaço revelador da verdade, única forma do novo homem se comunicar com o novo mundo que aparecia. Era diante da câmera que Ann Bishop conseguia finalmente liberar a tensão sexual que o casamento fracassado provocara, era assistindo essas filmagens que Graham Dalton conseguia se excitar, já que os contatos reais eram frustrados por sua impotência.
Há em "A Concepção" essa mesma noção do vídeo como instância da luz, quando o resto todo parece obscuro, complicado, difuso. Liz mantém um vídeo-diário, as festas hedonistas são todas registradas em seus detalhes, e até mesmo quando vai explicar o efeito e a potência de certas drogas, X precisa da imagem, da projeção de slides na parede (e eventualmente no seu corpo, conforme fique diante do foco de luz e, portanto, acasalado com o mundo da reprodução). Essa necessidade da imagem de si mesmo nos atravessa, toma conta das nossas histórias, e chega à 1998 e à "New Rose Hotel", obra-prima de Abel Ferrara, como um caminho sem volta. A idéia da concorrência de espaços, um oficial, da película 35mm, onde o mundo tradicional acontece, e um alternativo, o do vídeo, da imagem digital, do Super-8, onde as verdades podem finalmente vir à tona, já não se aplica, pois o que era paralelo agora se contamina e se mistura de maneira definitiva.
Vemos a trajetória de X (sim, no filme de Ferrara há também um X, Willem Dafoe, personagem igualmente fugidio) através de olhos que, apesar de notarem a diferença de texturas, já não encontram diferença moral nenhuma entre este ou aquele registro. Daí o filme de Belmonte também tira suas forças, quando iguala memórias, fatos, presente, passado, vídeo, película, tudo num mesmo e caoticamente equilibrado corpo.
Essas disposições trazem ao filme uma certa ingenuidade no trato de suas questões. Escapando da farsa moderninha, "A Concepção" cai no pós-moderno de manual, traduzindo literalmente certos chavões atribuídos aos estudos dessa teoria (a figura-símbolo dos concepcionistas queimando suas carteiras de identidade, por exemplo). É o preço a se pagar pela entrega absoluta à aventura de dividir a existência com este grupo de pessoas. Belmonte pula de cabeça no agora, e sabe bem das conseqüências disso. A inocência deslocada num meio de manifestos, orgias, drogas, não deixa de ser a grande força do filme.
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Foto: Divulgação
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Filme feito na linha de frente, "A Concepção" parte para a guerra com sua época, sem coletes, sem capacetes. Travestido do filme que precisa ser naquele dia (e isso vale para o espectador, que pode usar qualquer um dos disfarces que o filme oferece), sabendo que aquela farsa toda durará, no máximo 24 horas. Amanhã será tudo diferente, mas o amanhã já é tarde demais para "A Concepção", filme do aqui (Brasília, Vitória, Bangladesh, qualquer que seja o seu "aqui") e do agora.
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