Faltam seis semanas para as eleições e até agora nada d'a população animar-se com a campanha eleitoral. A propaganda política pelo rádio e a TV começou anteontem e não desfez o marasmo.
Todo mundo toma esse aparente desinteresse como sinal de que a maioria está decidida a (re)eleger Lula. Será mesmo? Parece que sim, mas nossa fraca memória democrática duvida da eficácia dos indícios da vontade popular. Desconfia-se de gato na tuba. Na teoria e na prática, eleição rima com frustração.
Há quem acredite que estamos vivendo uma espécie de ressaca pós-gestão petista. Houve alguns exageros e certa decepção com algumas figuras mais notórias da esquerda, que andaram exagerando na dose. Foi um porre. Até hoje tem petista com vergonha de se olhar no espelho. Alguns caíram fora.
Com o racha do PT, a torcida ficou um pouco dividida. Uma fatia gerou o P-Sol, cujo comportamento lembra o PT de outrora, enquanto o PT de hoje parece contentar-se em atuar como uma legenda a serviço de Lula, como o PDT foi do Brizola e o PSP do Ademar.
O tempo há jogar luz sobre o perfil de Lula e seu partido, mas é indiscutível que ele só conseguiu se manter no cargo porque a soma de pontos ao longo de sua trajetória foi maior do que os desvios éticos determinados pelo pragmatismo político da cúpula petista.
Um balanço dos quatro anos do governo Lula indica que suas reformas não passaram de meias-solas - serviram para cozinhar o galo, nada mais. Basta lembrar que a Previdência continua em xeque e sem solução num horizonte de curto e médio prazo.
A manutenção da política econômica neoliberal gerou alguns milhões de empregos, mas continuam faltando recursos para investimentos em setores básicos, como saneamento, habitação, estradas, educação e segurança.
A acomodação, a sujeição ao status quo é um dos traços mais decepcionantes de um governo que encarnava a esperança de grandes mudanças.
No seu tempo, Fernando Henrique Cardoso justificava-se dizendo que a política é a arte do possível. Lula é bem menos afeito a esse tipo de autocrítica. Para ele, seu governo fez muito e agora sim está maduro para fazer muito mais.
Mesmo com o dólar baixo, o saldo da balança comercial continua pagando a conta do desequilíbrio nas contas externas. Dizem que a dívida pública está mais leve, mas na realidade parece tratar-se de uma vantagem apenas contábil, pois continuamos presos dentro de um quadro de dependência estrutural, sem capacidade (financeira, econômica e tecnológica) para conquistar aquela relativa autonomia que caracteriza um país livre e soberano.
Sim, isso não se consegue da noite para o dia. Para dar um salto desses, seria preciso investir décadas em educação. Como os tigres asiáticos... Se a receita é conhecida, por que ao menos não se coloca um plano no papel, sinalizando o caminho que leva ao futuro?
Sim, Lula deve ao Brasil um projeto de desenvolvimento de longo prazo. Fora talvez Tarso Genro, enrolado com a administração do varejo político, não há sinais de que haja no governo alguém capaz de suprir essa lacuna. E ficamos assim, o governo Lula a lembrar aqueles times que ganham sem convencer. Dando toques para o lado, vai levando o jogo em banho-maria.
Foi para isso que o PT arrastou multidões no último quarto de século?
A esta altura do campeonato, com o placar marcando uma vitória parcial e sofrida para o time de Lula, o que faz o eleitor desconfiado-torcedor decepcionado com promessas compridas e não cumpridas? Põe as barbas de molho e espera que a campanha eleitoral ofereça maiores esclarecimentos sobre o presente e melhores indicações sobre o futuro.
Para não dizer que não falei de flores, é justo lembrar que o maior gol do governo Lula é a distribuição de renda, via programas sociais custeados por verbas públicas. Para melhorar a vida dos pobres, ele não tirou dos ricos; sacrificou a classe média.
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