Na próxima primavera, deverei colher flores que venho plantando já há algum tempo.
Quanto mais me preparo para colher flores, mais percebo que já vai diminuindo a safra anual de espinhos que plantei ao longo da vida e tenho sido obrigado a colher, porque assim é e assim será, sempre.
Daqui a uns poucos dias, escreverei cartas a dois amigos queridos e duas amigas queridas, gente que mora no meu coração desde o tempo em que quando o carteiro chamava na casa da gente era sinal de coisas muito mais agradáveis do que a simples entrega de contas a pagar.
Tenho andado descalço, tenho visto o sol nascer e tenho também ido à praia à tarde, a ver o crepúsculo, ainda que na maioria das vezes isso se passe apenas na minha imaginação, que moro tão perto do mar que às vezes acho desnecessário ir até ele.
Tenho me concentrado no trabalho para que logo me volte a sobrar tempo para momentos de preguiça total.
Faz tempo que ando renamorando meu violão e me dizendo que qualquer dia vou abrir o estojo, retirar meu velho amigo, retomar o velho ritual de limpá-lo cuidadosamente, trocar as cordas, caprichar na afinação e ver se ele responde com música quando eu ferir suas cordas.
Dia desses vou terminar uma porção de letras de músicas que tenho guardadas, rabiscadas apressadamente em todo tipo de papel e depois arquivadas no computador. Vou ligar para velhos amigos músicos, parceiros queridos, e marcar encontros de poesia e de enternecimento.
Minha vida é linda, mas meu mundo interior é ainda mais rico, pacífico e colorido, então preciso arrumar um jeito de escrever dois livros com histórias de amor, sem entristecer ninguém. Um contará das mulheres mais importantes que tive, e para proteger seus nomes, nossas histórias e suas vidas, todas aparecerão no texto com nomes de flores. O outro falará de mulheres que não tive e que apenas deixaram perfume no meu coração. E seus nomes aparecerão no livro como sendo essências aromáticas. E esses dois livros terão cumprido sua missão se forem capazes de estimular nem que seja uma única pessoa a tomar coragem e sair do caramujo de si, na direção da troca saudável de afetos, corajosamente, como tenho tentado fazer.
Tenho muitas coisas a comemorar. Talvez a principal delas seja o fato de que posso eventualmente ter inimigos, mas tenho a certeza absoluta de que não sou inimigo de nenhuma pessoa.
Penso e sinto que ainda vou viver muitos anos, conforme desejo, quero e planejo, mas, se tiver de comparecer hoje diante do Pai, no momento em que batuco essas maltraçadas estou preparado para um depoimento respeitoso e sereno:
"O Senhor sabe que, dentro das minhas limitações espirituais, eu tenho tentado crescer, sem descanso."
É mesmo uma beleza a gente ser feliz e saber que é.
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