Laura é professora de piano no Brasil, não é imigrante mas vem muito a Miami por causa da irmã e dos sobrinhos, que moram em Pompano, o reduto dos brasileiros nessas paragens. Apesar de suas longas visitas, Maria não fala inglês. Nem precisa, pois nunca se afasta do reduto familiar, onde todos só falam português.
Raul trabalha nos correios, e embora seja imigrante, é naturalizado e vive há tantos anos na terra adotiva que não fala espanhol, só inglês. Talvez de tanto deixar cartas brasileiras num certo endereço em Pompano, sob o inclemente sol de Miami, Raul foi enfeitiçado pelos suaves acordes do piano de Laura.
Difícil imaginar um romance mais difícil, onde os envolvidos não falam a mesma língua, e não comungam a mesma cultura, os mesmos hábitos e crenças. Assim mesmo a coisa foi em frente, e através de sorrisos e sinais, entremeados com os suaves acordes do piano de Laura, eles decidiram se casar.
Dirão os insensíveis, que dificuldade pode ter Maria em aprender inglês? Nenhuma, naturalmente, mas no período de tempo em que essa pequena novela romântica se desenvolveu, isso seria impossível. Laura e Raul se conhecem há apenas dois meses. Não deu tempo para Laura se aprofundar no idioma de Shakespeare e Raul não teve tempo para aprender o idioma de Camões.
Todos os tetê-a-têtes ocorreram com o dicionário inglês-português na mão. De qualquer forma, as chances desse casamento dar certo estão intrinsicamente ligadas à dificuldade do casal se comunicar. Quero dizer, quanto menos falarem, daqui pra frente, melhor para eles. Se chegaram ao estágio atual sem o diálogo que chamamos de franco e aberto, não vão precisar dele daqui pra frente.
Conheço outro caso semelhante, embora bem mais antigo. Frida veio da Alemanha, Salim veio do Líbano, e nenhum deles falava a língua um do outro, nem o português. Essa torre de Babel não os impediu de se apaixonarem, casarem, terem muitos filhos e viverem felizes até que a morte os separou...
Dirão os incrédulos, eram tempos em que os casamentos, feitos de matéria prima mais nobre, duravam para sempre. Hoje, quando tudo é descartável, já não há mais garantias. Poucos relacionamentos conseguem resistir à síndrome de imediatismo que nos assola.
Salim e Frida chegaram às bodas de ouro, e quando lhe perguntaram a receita dessa longevidade amorosa, Frida respondeu, "Quando Salim faz algo que me aborrece, eu reclamo em alemão; quando eu faço algo que o aborre, ele reclama em árabe. Quando as coisas estão bem, falamos português". Fica aí a receita para o jovem casal.
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