"O degrau de uma escada não serve simplesmente para que alguém permaneça em cima dele, destina-se a sustentar o pé de um homem pelo tempo suficiente para que ele coloque o outro um pouco mais alto".
(Thomas Huxley)
O cientista político Antônio Carlos Medeiros faz uma análise do quadro político no Estado com vistas às eleições deste ano. Os principais candidatos ao governo, o governador Paulo Hartung (PMDB) e o ex-prefeito da Serra Sérgio Vidigal (PDT), ao lado dos grupos políticos que os cercam, são os personagens principais da entrevista.
Ele traça o perfil de cada candidato e analisa o contexto político, que a seu ver favorece a reeleição do governador Paulo Hartung em função de seu projeto de hegemonia política no Espírito Santo. "Nesse sentido" - diz Antônio Carlos -, "tudo indica que é um projeto de longo prazo, com dimensão política, econômica e cultural". Quanto a Vidigal, que o entrevistado vê como uma figura política muito bem avaliada, "está envolto em um fraco arco de alianças, que o credenciará para o futuro político, mas não para esta eleição". E ele completa: "Nesse sentido, é uma oposição mais pontual. Mas ela não deixa de contribuir para que o processo político do Espírito Santo tenha o mínimo do contraditório, que é essencial ao ambiente da democracia."
Nesse ponto, Antônio Carlos destaca a importância da presença do ex-governador Max Mauro (PDT) na disputa pelo Senado: "Mais do que a candidatura do Vidigal, a candidatura que poderá contribuir para estabelecer esse contraditório na política estadual é a candidatura do ex-governador Max Mauro ao Senado. Essa , sim, poderá ainda vir a ser, pela competitividade que tem demonstrado nas pesquisas de opinião, uma candidatura capaz de gerar o contraditório e, em gerando o contraditório, criar condições políticas para que o Estado venha a ter um arco de alianças que possa configurar o que se convencionou chamar de oposição.como um forte elemento para a configuração desta oposição que começa a ganhar corpo no Estado."
Século Diário: - No Estado nós temos as candidaturas de Paulo Hartung e Sérgio Vigidal. O que significa um e o que significa o outro no atual quadro político do Estado?
| |
Foto: Riokan
|
|
|
|
Antônio Carlos Medeiros: - A candidatura do governador Paulo Hartung é uma candidatura difícil de ser derrotada, porque ele costurou um arco de alianças muito amplo, não só com aliados nas instituições públicas e estatais, como também com aliados na sociedade civil. Então, a partir desse arco de alianças, ele tem todas as condições de ganhar a eleição. Tem enraizamento social. Essa candidatura, a partir daí, dessa possibilidade de ganhar com esse arco de alianças, representa a possibilidade de continuidade do processo de ajuste fiscal e administrativo da máquina pública do Espírito Santo. Eu acredito que agora, no segundo mandato, há a possibilidade de ele colocar em prática novas políticas, principalmente no campo social. E aí, principalmente nas áreas de segurança, saúde e educação, já que no primeiro mandato o governador localizou as prioridades mais no campo do ajuste fiscal e da questão institucional.
Tratava-se de cuidar da questão crucial da melhoria do clima institucional no Espírito Santo, que é também uma questão que se projeta no campo do simbólico. Então, eu penso que a candidatura do governador Paulo Hartung significa isto: a consolidação da supremacia da sua liderança política, num contexto de projeto de hegemonia política no Espírito Santo. Nesse sentido, tudo indica que é um projeto de longo prazo, com dimensão política, econômica e cultural. Já a candidatura do ex-prefeito Sérgio Vidigal Vidigal, que se contrapõe a ele, se coloca como uma candidatura de oposição, mas não ganhou fôlego para poder ter condições de competir, porque não tem essa característica que tem a candidatura do governador, de tecer um arco mais amplo de alianças. Então, nesse sentido, a candidatura do Vidigal é uma candidatura para marcar posição no processo político do Espírito Santo, com vistas à continuidade da carreira política do Vidigal, em outras eleições.
A ampliação do seu significado, do plano local e municipal, para ser conhecido no plano estadual. Mas não se configura como uma candidatura que tem um arco consolidado de apoios para se caracterizar necessariamente como oposição consolidada. Nesse sentido, é uma oposição mais pontual. Mas ela não deixa de contribuir para que o processo político do Espírito Santo tenha o mínimo do contraditório que é essencial ao ambiente da democracia. Mais do que a candidatura do Vidigal, a candidatura que poderá contribuir para estabelecer esse contraditório na política estadual é a candidatura do ex-governador Max Mauro ao Senado.
Essa , sim, poderá ainda vir a ser, pela competitividade que tem demonstrado nas pesquisas de opinião, uma candidatura capaz de gerar o contraditório e, em gerando o contraditório, criar condições políticas para que o Estado venha a ter um arco de alianças que possa configurar o que se convencionou chamar de oposição. Hoje, a rigor, a candidatura Vidigal não configura, no meu modo de entender, oposição consolidada. Ela é uma manifestação política ainda pontual, que reúne uma aliança pontual para marcar posição, mas não se configura como oposição no sentido de isso ser suficiente para gerar uma polarização na política do Espírito Santo.
- Quer dizer que a oposição está representada na campanha que o Max faz...
| |
Foto: Riokan
|
|
|
|
- Exatamente... eu vejo dessa forma. A candidatura do ex-governador Max Mauro ao Senado, essa sim, poderá gerar, ao longo do processo político, começando pelo processo eleitoral e se desdobrando depois, um arco de alianças que vá nesse sentido de construir e processar um bloco de oposição no Estado. Hoje, isto não se configura. O leque de apoios do ex-prefeito Vidigal não se configura como um arco político relevante e pertinente de oposição. Neste sentido - de relevância e pertinência - é a candidatura do ex-governador Max Mauro que poderá gerar efeitos pertinentes. A partir do processo eleitoral de agora e depois. O que significa dizer que ela ainda precisa ser construída no tempo. E aí, sim, dependendo do que ocorrer com o resultado das eleições, ele poderá liderar e costurar um arco de oposição, que poderá até desembocar com mais força nas eleições de 2008, quando serão disputadas as sucessões nos municípios. Nesse momento, não há, no Espírito Santo, um arco que se possa configurar como de oposição. É uma coisa, por enquanto, um pouco mais personalista, centrada na figura do Vidigal, do que uma coisa mais orgânica como é a candidatura do governador Paulo Hartung. Esta, sim, é orgânica nesse sentido, de que ele tem alianças institucionais, partidárias e na sociedade civil. Tem raízes sociais, elemento político essencial que a candidatura Vidigal ainda não construiu para além das fronteiras do município da Serra. Vale repetir: a sua base política e social ainda é muito restrita ao município da Serra.
- E aí chega na eleição ao Senado, com a possibilidade de finalmente o Estado ter oposição, porque o Paulo, nessa jogada inteligente dele, passou os últimos quatro anos sem oposição. É a partir do Max que vamos ter oposição...
- Provavelmente. Mas, para isto, o ex-governador Max Mauro, a partir do processo eleitoral, precisa ser capaz, no sentido político, de costurar alianças que possam configurar um espectro de oposição. A princípio, ele poderá polarizar esse processo mais que o ex-prefeito Sérgio Vidigal. Agora, isso vai depender do resultado eleitoral, para que a gente veja como estão as forças políticas, qual é o peso de cada força política, qual é o mapa político que sairá das urnas agora em 2006.