Vitória (ES), edição de 31 de agosto de 2006    
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A sedução e o caos



Vitor Graize*
[Excepcionalmente nesta semana]


Há algum tempo, sem pressa, venho lendo "A Sedução do Lugar", de Joseph Rykwert, um apanhado de dados históricos e conceituais sobre "A história e o futuro da cidade", como indica seu subtítulo.

Rykwert, um historiador da arquitetura, passa rapidamente pelo surgimento das primeiras cidades, dez mil anos atrás, pontuando a transição "da vida nômade para a cidade permanente e defendida, orientada por seu templo e seu mercado", para chegar ao foco do livro: a estruturação dos espaços urbanos ao longo dos três últimos séculos até o estágio atual.

Depois de atravessar um período relativamente extenso da evolução das cidades, desde a primeira onda de pessoas que, expulsas do campo após os cercamentos na Europa, invadiram as cidades e atuaram na formação do tecido urbano moldando-o da forma como o conhecemos, até as inovações técnicas e ideológicas impostas pela revolução industrial, que impuseram transformações no transporte e na comunicação nos espaços urbanos, Rykwert entra no terreno do modernismo e comenta a importância da Bauhaus no desenvolvimento da arquitetura e do design do século XX.

A Escola Bauhaus surgiu em 1919, na Alemanha, fundada por Walter Gropius, e influenciou arquitetos e artistas primeiro na Europa e depois nos Estados Unidos, para onde seus mentores se transferiram com a ascensão do regime nazista. A Bauhaus também influenciou Tom Wolfe, o lendário jornalista norte-americano, que em 1981 lançou "Da Bauhaus ao nosso Caos", ensaio crítico sobre a atuação dos europeus na formação de um estilo arquitetônico nos Estados Unidos a partir de 1945.

Wolfe mira suas críticas envoltas em sarcasmo nos expoentes do Estilo Internacional, como ficou conhecido o modernismo na arquitetura. Le Corbusier, Walter Gropius e Mies van der Rohe são motivo de chacota para Wolfe, responsáveis por aberrações arquitetônicas e pela imposição fascista de um pensamento arquitetônico único.

Em "Da Bauhaus ao nosso Caos", Le Corbusier é Corbu, o Sr. Purismo, que "mostrou a todo o mundo como se tornar um arquiteto famoso sem construir nada"; Gropius, comandante do curso de arquitetura de Harvard, é o Deus Branco n°. 1; Mies, responsável pelas "caixas de vidro", o nº. 2.

Wolfe, ainda que descambe para uma crítica irônica, ironia que é marca de sua literatura, elabora uma análise firme e detalhada dos projetos modernistas, ou "caixas de vidro" como prefere o autor, construídos nos Estados Unidos dos anos 40 em diante. Nem sempre construídos! Wolfe repudia, principalmente, os arquitetos modernistas sem obras que foram premiados pelos seus esboços ou se perderam em meio a teorias "não-burguesas" e por isso não construíram quase nada.

Ao contrário de Rykwert, que no já citado "A Sedução do Lugar" faz um relato histórico frio das transformações no pensamento arquitetônico, Wolfe toma o partido dos clientes norte-americanos que, segundo ele, agüentaram o tranco feito homens, vivendo em edificações que de norte-americanas e funcionais não têm nada.

Rykwert fala da submissão da forma à função, do desenho que privilegiasse o uso do edifício, do "menos é mais" de Mies. Wolfe zomba da idéia tão moderna de uma arquitetura não-burguesa cujos mestres têm seus projetos patrocinados por grandes corporações, como no caso do Edifício Seagram, projetado por Mies em 1958. Para Wolfe, o Seagram é "habitação operária, absolutamente não-burguesa, trinta e oito andares plantados na Park Avenue para a firma que produzia o uísque de centeio chamado Four Roses". Rykwert, em nota de pé de página, cita o livro de Wolfe como "ofensivamente convincente" em sua cólera destrutiva contra a arquitetura moderna e ameniza a situação culpando não Le Corbusier, Gropius e Mies, mas seus imitadores despreparados, responsáveis por "uma das paisagens urbanas mais desoladas do século".

As características contrastantes dos dois livros, um que se pretende histórico, outro que é ensaio crítico com apropriações da literatura, induzem o leitor a reações distintas, que vão da leitura passiva de Rykwert e sua objetividade à empolgação com Wolfe e suas interjeições zombeteiras aos deuses brancos.

A marca de cada um dos dois escritores fica evidente no relato da demolição de um imenso conjunto habitacional em St. Louis, construído pelo arquiteto Minoru Yamasaki. Para Wolfe, a demolição foi uma vitória do proletariado contra os conjuntos habitacionais modernistas. Ele atribui o fracasso do empreendimento às ruas suspensas entre um bloco e outro, já que "tudo que talvez acontecesse normalmente em bares, bordéis, clubes, bilhares, galerias de jogos, armazéns, paióis de milho, hortas de nabos, montes de feno, cocheiras, agora se desenrolava nas ruas suspensas", pois no conjunto não havia nenhum outro lugar onde "pecar" em público.

Rykwert, por outro lado, insere o ódio ao projeto de Yamasaki em um contexto mais amplo, com "certa conotação xenófoba" dos críticos norte-americanos aos arquitetos estrangeiros. O historiador relata que "Yamasaki tem sido duramente criticado pela maneira como foram organizados o acesso e a circulação nesses edifícios", e julga negativa a "proposta constantemente reiterada de que os problemas da cidade, particularmente aqueles referentes à habitação, podiam ser resolvidos pelo agrupamento de lâminas isoladas de apartamentos em meio a gramados", cujo conjunto Pruitt-Igoe, em St. Louis, demolido parcialmente em 1972, é exemplar.

Talvez seja uma sina modernista a relação entre projetos arquitetônicos enormes e destruição, ou o destino apenas das obras de Yamasaki, que em 1966 foi responsável pelo projeto do World Trade Center.

E-mails para o autor: vitorgraize@yahoo.com.br


 

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