Sentado no muro da clínica, João Dandão pode ouvir nitidamente o baticum dolente dos tambores de Umbanda. Pode mesmo reconhecer os pontos que o ogã do centro puxa e que os filhos-de-santo repetem, embora daquela distância não possa entender com clareza o que cantam. Conhece as melodias, então pode saber do que se trata, a que orixá se destinam, que objetivo têm.
Espera, um tanto impacientemente, que os médicos terminem de atender seu irmão, que quebrou a perna. Chamado às pressas, na macumba, logo sai para transportar o irmão. Pena. Naquela noite, tinha chegado bem cedo à Tenda Espírita Pai Oxalá, para a sessão.
Nego Giba de Ogum é um pai-de-santo temido e respeitado. Faz tempo que Dandão espera uma chance de presenciar uma sessão daquela lenda viva e conferir se de fato são verdadeiras as coisas que se dizem do pai-de-santo.
Pouco mais das nove da noite, a sessão começa. Nego Giba entra no terreiro, já manifestado por um preto-velho, enquanto um cambono seu carrega uma muda de roseira e um enxadão. No meio do terreiro, no chão de terra batida, o auxiliar cava um buraco de menos de um palmo, onde o preto-velho planta a roseira enquanto os devotos cantam baixinho:
"Oxalá, meu Pai, tem pena de nós, tem dó. A volta do mundo é grande, seu poder é bem maior."
Para desgosto de João Dandão, nem bem começa a gira de caboclos quando um amigo vem avisar do acidente com o irmão, um tombo de bicicleta. O jeito é sair.
Uma enfermeira chega à varanda. Chama Dandão. A fratura exposta é complicada, a cirurgia vai demorar um pouco mais do que o previsto. Tudo está sob controle. É só ter mais paciência. O rapaz está bem.
Sentado no muro, Dandão tenta adivinhar o que se passa no terreiro. Teria o pai-de-santo feito cipó virar cobra, folha virar morcego? Teria encomendado chuva, tirado doença de filho-de-santo, prometido barriga pra casada de ventre seco, conforme se dizia?
As cantigas dizem pouco do que se passa lá embaixo. Vem Xangô, com suas pedras, Iansã com seus raios e seus trovões. Oxóssi chega com sua flecha, Iemanjá com seus espelhos, seus colares, suas conchas e suas lágrimas. Só quando ecoam os pontos de Exu é que João percebe a passagem da Hora Grande.
Já é um novo dia.
Finalmente deixa o irmão em casa, deitado. Anda depressa, quase correndo.
Quase chega a tempo.
No meio do terreiro, a roseira tem mais de um metro de altura. Uma a uma, Nego Giba vai colhendo as rosas, enormes, viçosas, de um rosa suave, e entregando aos filhos-de-santo para que levem para casa, coloquem num copo e no outro dia bebam aquela água, como remédio para tantas aflições.
É linda a fila de contritos devotos descendo o morro, rosa na mão, espírito pacificado.
Memórias de um tempo-sempre em que a magia mora pertinho da gente.
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