O ano de 2006, que já vai para as quartas-de-final, demorou a nos mandar o primeiro furacão da temporada. Chegou um pouco atrasado, dando-nos a doce ilusão de que esse ano não seria igual a aquele que passou. O nome dele é Ernesto, que não mora no Brás e nem nos convidou para um samba na sua casa.
Mas esse Ernesto também vem fazendo das suas. Escrevo na segunda, sob a ameaça do indesejado visitante chegar na tarde de terça. O que quer dizer que metade da cidade já parou, o trânsito já está insuportável, e os postos de gasolina, quando não têm filas imensas, é porque a gasolina já esgotou.
Sem falar na visita obrigatória ao supermercado, onde as prateleiras dos artigos não perecíveis toleráveis também de há muito estão às moscas. E olha que a cidade ainda nem se recuperou completamente da tragédia Katrina, e ainda tem muitos telhados por aqui cobertos com lonas azuis.
Mas como as coisas foram muito piores em Nova Orleans, nem mesmo podemos reclamar. Os furacões mudam completamente a nossa rotina, e amanhã vai estar tudo fechado, nem trabalho, nem banco, nem escolas. O retorno à normalidade é imprevisível, dependendo totalmente dos caprichos da natureza.
Isso nos impede de unir o inútil ao agradável, e fazer uma programação de viagem, por exemplo, no período em que a cidade fica parada. Não temos como saber quanto tempo vai durar a quarentena, se um dia ou uma semana, ou até mais. Amarga-se em casa a falta de água e de luz, as longas filas, a comida enlatada, a falta de gasolina nos postos, porque tudo pode estar normalizado no dia seguinte.
Ou não. Na dúvida, vamos tirando partido do que temos à mão, aproveitando os feriados forçados para fazer coisas que não fazemos porque vivemos escravizados à tecnologia, gastando horas em frente de um computador ou de uma televisão, vendo programas ruins e repetitivos, fazendo cooper nos shoppings, onde se gasta mais do que seria conveniente, essas coisas.
À luz de velas e lanternas ainda se pode ler um livro, escrever essa coluna como nos velhos tempos, ziguezagueando a caneta no papel que estiver à mão, bater um papo, arrumar os armários, visitar amigos e parentes que moram perto, tostar uma picanha na churrasqueira a carvão, fazer o cooper ao ar livre.
Até que a vida volte à normalidade, quando vamos esperar o próximo furacão, alternando um nome feminimo e um masculino em ordem alfabética, formado por essa maluquice climática que teima em acontecer todos os anos.
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