"O homem é o que ele acredita."
(Anton Tchecov)
Francisco Flores - ou simplesmente Chico Flores, como todos o tratam - é um ás, dizem os amigos mais chegados. Um ás por duas razões muito práticas: teve formação militar como membro da Força Aérea Brasileira (FAB) e, na condição de jornalista, ostenta uma trajetória de brilho, talento, competência e dignidade que o distingue e o coloca no rol dos profissionais mais expressivos da história da imprensa capixaba. Chico Flores é conhecido pelos colegas como comedido e disciplinado - um cavalheiro.
Nesta entrevista, ele navega nos mares da sua história, passando pela experiência da clandestinidade do velho Partidão (PCB - Partido Comunista Brasileiro), que não se entregava às investidas da repressão, concentradas na censura e na tortura. Esse cenário difícil não só possibilitou a Flores uma fundamentação ideológica como também o levou a outras conquistas, como o selo de formatura em Direito Internacional pela Universidade Patrice Lumumba, de Moscou.
Sua estadia na extinta União Soviética, país-modelo para os socialistas-marxistas-leninistas de todo o mundo, se deu quando foi escolhido para estudar na Escola da Juventude Comunista (Konsomol). Com esse arsenal de conhecimentos, Flores, ao voltar para o Brasil, recomeçou a sua vida jornalística, indo trabalhar em "A Gazeta".
Aqui ele conta como foi a sua chegada ao jornal, bem como fala da efervescência política que o País viveu em busca de uma real democratização dos meios de comunicação.
Século Diário: - Como foi que você começou na profissão?
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Foto de: Riokan
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Chico Flores: - Meu primeiro contato com a profissão de jornalista foi aos 16 anos de idade, nos idos de 1958, na "Folha Capixaba", jornal do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que era dirigido por Hermógenes Lima Fonseca. Eu comecei como repórter de Cidade e cobria os bairros. Na época, a "Folha" era lida pelos setores politizados, membros do partido e simpatizantes, mas não tinha a penetração de um jornal de massa. A cobertura intensiva dos problemas dos bairros visava a superar essa grande deficiência. A iniciativa teve êxito, só não havia condições técnicas de ampliar muito a circulação do jornal, pois seu parque gráfico não agüentaria um aumento substancial de tiragem. Mas, mesmo assim, toda semana eu tinha a incumbência de escrever uma reportagem de página inteira sobre um determinado bairro. Digo por semana porque a "Folha" era um semanário. Fui parar na "Folha" quase que por gravidade.
- Como foi a experiência dentro do partido?
- Eu sou filho de comunista e, praticamente, me criei dentro do partido. Desde tenra idade eu convivi com membros do partido que se reuniam lá em casa, em encontros clandestinos e cercados de todos os cuidados possíveis, já que o partido estava na clandestinidade. Fui educado dentro da ideologia comunista, que exigia de seus adeptos ser bom filho, bom pai, bom marido (esposa), bom companheiro, bom amigo, bom profissional. Aliás, ser sempre bom em tudo, para dar exemplo. Desde criança também freqüentava a "Folha Capixaba", principalmente aos domingos, quando a Redação do jornal se transformava em local de encontro de jovens, seminários, palestras e conferências.
- Qual foi o seu outro momento na "Folha"?
- Saí da "Folha" dois anos mais tarde, quando fui para a Força Aérea, onde fiquei dois anos ininterruptos. Depois da Aeronáutica, voltei para a "Folha", agora adulto e com consciência político-ideológica mais consolidada, tanto que, de vez em quando, escrevia artigos ideologicamente bem estruturados. Como o partido, no início da década de 60, desfrutava de uma semilegalidade, podia-se expor opiniões que não eram dominantes. Nessa época, o Brasil vivia um período de liberdades e se abria para o bloco soviético, a China e Cuba. O presidente na época, Jânio Quadros, condecorou Che Guevara, um dos líderes da revolução cubana e ministro da Economia do governo Fidel Castro. O vice-presidente, João Goulart, estava na China, ampliando as relações com o país de Mão Tse Tung. Estávamos no auge dos "anos dourados" e o romantismo predominava nas músicas que os brasileiros cantavam e/ou dançavam. O Brasil tentava expandir seu parque industrial e, estimuladas pelas iniciativas tomadas antes pelo governo de Juscelino Kubistchek, as forças progressistas, tendo à frente o PCB, pressionavam o governo federal a realizar reformas de base, um conjunto de propostas que visava a promover alterações nas estruturas econômicas, sociais e políticas que garantissem a superação do subdesenvolvimento e permitissem uma diminuição das desigualdades sociais. As reformas de base abrangiam: as reformas bancária, fiscal, urbana, administrativa, agrária e universitária. Queria-se ainda estender o direito de voto aos analfabetos e às patentes subalternas das Forças Armadas, como soldados, cabos e sargentos, além de medidas nacionalistas prevendo uma intervenção mais ampla do Estado na vida econômica e um maior controle dos investimentos estrangeiros no País, mediante a regulamentação das remessas de lucros para o exterior.
- Você morou um período no exterior...?
- Foi nesse período dinâmico da vida brasileira que fui estudar na União Soviética. O Comitê Central do PCB havia reservado uma vaga de aluno da Escola da Juventude Comunista (Konsomol) em Moscou para o Espírito Santo. Eu não estava na lista, mas um velho integrante do Comitê Estadual na época, Manoel de São Leão, defendeu o meu nome e eu fui o escolhido. Freqüentei, inicialmente na Escola do Konsomol, mas, logo em seguida, fui para a Faculdade de Direito Internacional da Universidade Patrice Lumumba, também em Moscou. Terminei o curso quatro anos mais tarde e voltei para o Brasil, que já estava sob o tacão da ditadura militar. Minha entrada se deu pelo Uruguai. No Espírito Santo já não existia a "Folha Capixaba". O PCB tinha sido proscrito e os comunistas ou estavam na clandestinidade ou presos. Como eu tinha estado fora do País, no período em que os militares destituíram o presidente João Goulart e assumiram o governo, e era desconhecido das forças da repressão, pensei em ir para o Rio de Janeiro e tentar o jornalismo. Não tinha planos para continuar no Espírito Santo, pois achava que, como ex-jornalista da "Folha Capixaba", jamais seria aceito por um dos jornais de Vitória. Enquanto não consolidava minha saída do Estado, me integrei no trabalho clandestino do partido. Ademais, não podia tentar a carreira diplomática no Brasil, pois, como eu tinha sido habilitado em direito internacional por uma universidade soviética, na certa seria considerado um agente da KGB (a polícia secreta da URSS). Um dia, me encontrei casualmente com o jornalista Willis Machado, que era secretário de Redação de "A Gazeta" e me conhecia. Ele aventou a hipótese de eu trabalhar em "A Gazeta" e marcou uma data para me apresentar ao general Darcy, que era o diretor responsável do jornal. No dia marcado fui, conheci o general Darcy, de quem passei a ser admirador inconteste, no primeiro momento do contato, e dois ou três dias depois estava trabalhando.
- Como foi sua entrada em "A Gazeta"?
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Foto de: Riokan
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- Eu entrei em "A Gazeta" numa época em que a empresa se preparava para dar um salto de qualidade. Já pensava na construção de uma sede mais ampla, ao lado do prédio de dois andares da Rua General Osório, e a transformação de "A Gazeta" num jornal regional, com noticiário indo além da cobertura dos fatos de Vitória. A fase do jornal eminentemente partidário já estava esgotada. "A Gazeta" não era mais um mero porta-voz e defensor dos interesses do PSD. E a prioridade imediata já era a construção do prédio novo, meta em que os donos do jornal concentravam toda a energia. Os reforços para a Redação vinham chegando aos poucos. Tadeu Teixeira foi um dos primeiros jornalistas contratados e a ele foi dada a incumbência de criar o segundo caderno (o AG2), que concentrou o noticiário cultural. Com ele veio José Carlos Corrêa, que também iniciava carreira em "O Diário" e passou a dividir comigo a secretaria de Redação. O passo seguinte foi a divisão do noticiário por editorias: Cidade, Política, Polícia, Nacional, Internacional e Esportes, com a contratação de novos profissionais. Quando eu entrei, meses antes, em "A Gazeta", encontrei um elenco de poucos, mas excelentes jornalistas. Eu os considero hoje precursores de uma nova era do jornalismo no Espírito Santo. Eles estão na história. Lá estavam Jackson Lima, João Barbirato, Francisco Silveira, Gutman Uchôa de Mendonça, Carlota, Audifax Nascimento, José Luiz Holzmeister, Darly Santos, Oswaldo Oleari, Janc e Walmor Miranda. Foi com eles que "A Gazeta" substituiu o jornalismo de colaboradores e telegráfico pelo jornalismo profissional.