"Colonizar e desmatar são sinônimos."
(Pierre Denis)
Nosso entrevistado deste final de semana dispensa apresentação. Não somente porque é colunista de Século Diário, mas porque tem trilhado um caminho jornalístico que atrai admiradores. Geraldo Hasse é um gaúcho de nascimento, mas um peregrino com alma de repórter que se debruçou em várias pesquisas - por exemplo, em torno do eucalipto.
É o eucalipto mesmo o nosso foco desta entrevista, a partir do último livro de Hasse, publicado este ano pela Já Editores, de Porto Alegre. "Eucalipto: histórias de um imigrante vegetal", transpõe o que o título sugere. A maestria de Hasse como escritor não deixa passar qualquer dúvida. Ele correu atrás das interrogações, das lacunas e dos questionamentos habituais que estão enviesados na celeuma entre florestadores e ambientalistas.
Nesta entrevista, Geraldo Hasse nos revela os caminhos da sua pesquisa e, mais especificamente, o encontro de dados que puderam reforçar a problemática trabalhada por sua obra. O eucalipto se impôs ao longo do século XX e, ao que nos parece, sua adaptação ao solo do Espírito Santo é uma realidade que incomoda a alguns, os que justamente investigam os pontos negativos da planta, que acaba por formar onde se instala um cinturão verde, dificultando o desenvolvimento de outras espécies e a convivência com outros seres vivos.
A argumentação dos ambientalistas não é suficiente para a outra corrente, de empresários do ramo, ou seja, os que aproveitam o caule da planta para diversas funções. Só para lembrar alguns, para a indústria moveleira e a produção de celulose.
Nossa epígrafe é tomada por empréstimo de uma das epígrafes de Hasse, no sétimo capítulo "A perda de memória", que trata também da exploração comercial madeireira no Rio Grande do Sul. Denis, geógrafo francês, referia-se ao Brasil no início do século XX.
Os fatos, de uma forma ou de outra, parecem interligados. Num dos trechos do décimo capítulo, Diálogo de surdos, Hasse expõe (p.86): "A migração para o Rio Grande do Sul da campanha contra a Aracruz capixaba colocou novas cartas na mesa dos debates, ameaçando converter a polêmica no clássico diálogo de surdos, em que as partes só emitem, não ouvem. Reflexo da guerra de informação que desde os anos 1980 mobiliza - pró e contra - setores da mídia, do funcionalismo, do governo, do empresariado, do sindicalismo e do Judiciário do Espírito Santo."
Quem quiser se deleitar com o livro, pode tentar obtê-lo pelo endereço www.jaeditores.com.br. Enquanto isso, acompanhe a nossa entrevista.
Século Diário: - Conte-nos como foi a sua pesquisa em torno do eucalipto. Por que o tema lhe interessou tanto?
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Foto: Arquivo Século
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Geraldo Hasse: - Gosto muito de árvores e sempre me interessei por suas origens, sua evolução. Mas o assunto caiu na minha mão por acaso. Ou por destino. Em 1986 me convidaram para escrever um livro sobre a história da laranja no Brasil. Pesquisei por mais de um ano. Viajei 25 mil quilômetros pelo interior de São Paulo atrás de estórias e personagens. Um dos achados da pesquisa foi que o boom da citricultura paulista nos anos 1930 havia sido liderado por um agrônomo chamado Edmundo Navarro de Andrade, um paulista que havia estudado em Coimbra, Portugal. E sabe o que ele tinha feito no início do século XX, logo depois de se formar? Tinha iniciado o plantio maciço do eucalipto no Brasil. Fez isso para a Companhia Paulista de Estradas de Ferro, a maior ferrovia brasileira na época.
- Quer dizer que esse Edmundo lhe rendeu dois livros?
- Por enquanto! Ele morreu em 1941 mas ficou como uma referência para os engenheiros florestais. Se falo dele é para lembrar que, na história da evolução de cada planta, sempre se encontram bons personagens, ricos em contradições. Navarro de Andrade encarou a implantação do eucalipto no Brasil como uma missão técnico-científica. Teve sucesso. Outras ferrovias imitaram a Paulista. Mas, depois de alguns anos, principalmente nas ferrovias mais eficientes, em São Paulo, o transporte de lenha para auto-abastecimento chegava a monopolizar um terço da capacidade de carga dos vagões, pois era preciso armazenar lenha em pontos estratégicos ao longo das linhas. Como solução para esse problema, algumas empresas começaram a investir na eletrificação de suas máquinas e linhas. O eucalipto já era usado como poste, dormente e para fazer carvão para siderurgia, mas Navarro ficou preocupado com a provável sobra de eucalipto e passou uma temporada nos Estados Unidos fazendo testes para usá-lo na fabricação de papel. Provou que isso era possível, mas sua descoberta foi ignorada. Também ninguém ligou para outra de suas experiências, aquela em que ele demonstrou a aptidão do eucalipto para a indústria do mobiliário. Em Rio Claro, no interior paulista, existe o Museu do Eucalipto, que pouca gente conhece. Todos os móveis de lá, e são muitos e imensos, foram feitos de eucalipto há mais de 80 anos sob orientação do Navarro de Andrade. Somente nos últimos dez anos os brasileiros começaram a fazer móveis de eucalipto para exportação. Para a fabricação de celulose, o eucalipto só começou a ser usado por volta de 1960, por iniciativa da Suzano, de São Paulo.
- Quem são os personagens principais da história do eucalipto no Espírito Santo?
- Não tive tempo para pesquisar mais a fundo, mas tudo indica que o plantio maciço de eucalipto no Espírito Santo foi iniciado na década de 40 pela Companhia Ferro e Aço de Vitória, a Cofavi. Ela plantou para ter um suprimento próprio de carvão, mas nunca chegou a explorar direito seus eucaliptais. A Cofavi era uma siderúrgica capenga que acabou sob controle do Banco do Brasil. Na década de 60, quando surgiu a legislação dos incentivos fiscais ao reflorestamento, os eucaliptos da Cofavi se tornaram o primeiro ativo da Aracruz Florestal, que havia sido constituída para exportar cavaco de madeira para o Japão. Foi só depois de alguns anos que os sócios da Aracruz resolveram montar uma fábrica de celulose. E aí entram outros personagens. Um deles é Eliezer Batista, que liderou a Vale do Rio Doce durante um largo período. A Vale plantou muito eucalipto nos anos 1950 para ter dormentes para a Estrada de Ferro Vitória a Minas. E também para sustentar a Cenibra e outros projetos florestais. Foi Eliezer que atraiu para o Espírito Santo o imigrante norueguês Erling Lorentzen, um dos fundadores da Aracruz. Parece que os dois são amigos desde os anos 50. O fato é que são vizinhos na Pedra Azul. Mas quem mais contribuiu para difundir o eucalipto no Brasil nas últimas décadas foi o engenheiro Antonio Dias Leite. Carioca para variar, no início da década de 50 ele trabalhou na construção da usina hidrelétrica Suissa, na montanha capixaba. Foi quando ele conheceu as experiências de reflorestamento da Cofavi e da Vale do Rio Doce. Em 1966, coube a ele rascunhar a lei dos incentivos fiscais ao reflorestamento, a pedido do ministro da Fazenda, Gouveia de Bulhões, que havia sido seu professor. Com a faca e o queijo na mão, Dias Leite criou a Aracruz Florestal para atender amigos e clientes dispostos a investir parte do Imposto de Renda no que parecia ser um bom negócio. Naquela época, o eucalipto ocupava 400 mil hectares no País, principalmente em São Paulo. Hoje ocupa 4 milhões de hectares. E a produtividade é três vezes maior, graças às pesquisas de diversos engenheiros agrônomos e florestais como Edgard Campinhos Jr., outro grande personagem dessa história. Campinhos chefiou a equipe que criou o eucalipto híbrido urograndis, especialmente desenvolvido para produzir celulose. Quer mais personagens? Anthero Bragatto, da Ceima, produtor de postes na Serra. Renato Moraes de Jesus, gerente florestal da reserva da Vale em Linhares. Na realidade, o eucalipto representa uma fração menor da cultura madeireira do Espírito Santo. Uma cultura monumental que está se perdendo.
- Seu livro afirma que a memória madeireira foi escamoteada pelos historiadores brasileiros.
- E não é verdade? Os ciclos madeireiros foram pouco estudados, por isso não constam dos livros de história econômica. Uma das razões disso é que a exploração florestal sempre foi meio clandestina, geralmente associada à ocupação irregular de terras. Boa parte dos madeireiros nunca gostou de contabilidade nem de publicidade. Rainor Greco, o capixaba que ficou famoso por exportar mais da metade do jacarandá do Brasil, foi uma rara exceção. Ele era vaidoso e entregou o ouro para o Rogério Medeiros, que percebeu o potencial do Greco como personagem. Isso, no alvorecer do ambientalismo, no início dos anos 1970. A colonização no Brasil e no mundo confunde-se com derrubada e queimada. O machado abriu caminho para a enxada, como a motosserra precede o trator. A etimologia da palavra "capixaba" está aí para confirmar o que estou dizendo.
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Foto: Arquivo Século
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- A história do eucalipto se passa principalmente nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo e Espírito Santo?
- O estado que mais cultiva o eucalipto atualmente é Minas, por causa da siderurgia. Mas foi no Rio Grande do Sul, em São Paulo e no Espírito Santo que mais convivi com pessoas envolvidas com essa árvore. Nasci no interior do Rio Grande do Sul, numa região de campo, onde se cultiva o arroz irrigado. Nos anos 1950/60 muitas bombas de irrigação eram tocadas por máquinas a vapor, as locomóveis, também muito empregadas em serrarias e engenhos de secagem de grãos. Hoje tudo isso é acionado por motores elétricos, mas naquela época não havia muita disponibilidade de energia. Cada um tinha que se virar mais ou menos sozinho. Então, para ter lenha para gerar vapor, plantava-se eucalipto porque no pampa a vegetação arbórea é escassa. Quando eu era moleque, havia eucalipto em tudo quanto era canto, o pessoal aproveitava espaços ociosos, as terras menos férteis, para plantar essa árvore. O campo de futebol da minha infância era literalmente cercado de eucaliptos. Quando a bola ia pela linha de fundo, a gente tinha de entrar no mato forrado de folhas secas e pedaços de galhos. Antes de construir o Gigante do Beira-Rio, nos anos 60, o Internacional de Porto Alegre jogava no Estádio dos Eucaliptos, esse era o nome. Porque havia uns eucaliptos nos barrancos onde foram construídas arquibancadas. No final dos treinos, de tardezinha, o vento trazia aquele cheirinho de eucaliptol. Enfim, os capões de eucalipto são muito comuns no pampa. Desde fins do século XIX os fazendeiros plantavam essa árvore como quebra-vento, para abrigar o gado do calor e do frio, e também para ter lenha para fogão, mourão para cerca, madeira para currais, galpões e até para as casas de moradia. Também se plantava eucalipto para alimentar as fornalhas das locomotivas das estradas de ferro. Aliás, foi para abastecer ferrovias que o eucalipto se disseminou em São Paulo, no início do século XX. No Rio Grande do Sul, 90% dos postes de eletrificação são de eucalipto. Ou, seja, essa árvore está inserida na história econômica do Brasil.