Vitória (ES), edição de 13 de dezembro de 2006    
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Vez por outra



Erly Vieira Jr.
Atualizado toda quarta-feira, às 16 horas
Apoio cultural Livraria Huapaya

É que em meu quarto o objeto que mais me fascina é um velho globo, corrigido à mão. Desde a infância. Duas Alemanhas, uma única Iugoslávia. Tchecoslováquia. A tal da União Antiet... ops, Soviética. Tudo redesenhado, redividido, tracejado com canetinha hidrocor.

Que não são os únicos rabiscos do mapa.

Sim, eu tracejei percursos andarilhos imaginários. Aos dezesseis sonhava ser mochileiro. E quando hoje eu crispo os lábios, esperando a chuva passar, sou todo olhos de menino. Daqueles que amanhecem na janela do segundo andar e acenam intermináveis aos passantes. Vezemquando fechava os olhos sempre que inesperado ouvia um ruído sépia. E mantinha tremicerradas as pálpebras até que só restasse o gorgeio das cigarras.

Vezemquando.

Afinal, eu também era menino e tive um amigo imaginário. Quase igual aos outros.

Incansáveis, entalhamos juntos incontáveis raios de sol no chão da sala. Vez por outra, retirávamos do bolso uma folha de caderno dobrada em quatro, que logo se transformava em ave ruidosa. Bastava dobrarmos a primeira esquina para sermos transportados a países e povos recém-inventados, costumes e idiomas apenas por nós compartilhados.

E então saíamos ruidosos a colorir descompassadamente meios-fios e entrelinhas da memória. Como se faltassem cinco minutos para o sol-pôr. Quase torvelinho. E o riso imprevisto feito quase recompensa.

Rodopiando, até que os pés esquecessem o chão e ensaiassem a brevidade do vôo.

Mas como um dia o amigo de mentirinha não apareceu mais, nem no dia seguinte, nem no outro, achei por bem gastar meu tempo esperando o cometa passar. Aquele que todo mundo esperou mas ninguém viu. Inclusive eu.

Afinal, eu também era menino. Quase igual aos outros. No dia em que fiz nove anos: Chernobyl. A notícia vazou quase uma semana depois. Peguei a hidrocor vermelha, desenhei uma nuvem sobre o mapa maisoumenos onde ficava a usina. Todo dia acompanhava o jornal, e aumentava o tamanho da nuvenzinha. Recontorno.

No terceiro dia, ela já cobria quase toda a União Sinestésica.

Dias depois, tudo era parca fuligem. Agora, a China bebia coca-cola. Eu não, preferia Baré, que vendia na garrafa igualzinha à de cerveja.

E me entretinha decorando a letra de Olhar 43, ligava o rádio e, de caderno na mão, copiava verso por verso da letra. Quando acabava de tocar, mudava de estação. A toda hora, em algum lugar do dial, a música começava a tocar. Após três dias, terminara de copiar toda a letra. London, london foi mais difícil. Essa eu via no I love you, aquele programa da TVE que ensinava a cantar as letras em inglês. Mas de London London só decorei o refrão. Achava linda a expressão flying saucers. Mas morria de medo quando tinha reportagem no Fantástico sobre extraterrestres, caso Roswell, meteoro na União Anestésica. Vez por outra saía correndo da sala e me escondia debaixo do edredom até o programa terminar. Tremicerrado, lábios crispados.

O que a gente curtia mesmo era tirar onda no recreio: brincar de adulto no boteco, a gente comprava a garrafa de Baré, quatro copos descartáveis, sentava num banco no pátio, arrancava o rótulo da garrafa e trocava pelo rótulo de Malt 90 que o Maurício tinha catado do churrasco de fim de semana na casa dele. E a diretora passava o maior sabão, deixava uma semana sem recreio quando pegava a gente fingindo que tomava birita. Vezemquando voltava pra casa com um bilhetinho dizendo que fiquei de castigo em sala por mau-comportamento.

Afinal eu também era menino. Quase igual aos outros.

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E-mails para o colunista: erlyvieirajr@hotmail.com


 

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