Desde muito cedo
O Ilusionista assume o partido que pretende defender, e lá pelo terceiro ou quarto truque fantástico do mágico Eisenheimer o diretor Neil Burger já deixou bem claro que não é o caso de amor proibido, a fraqueza do poder diante do talento, ou mesmo a aventura íntima de um policial cético que passa a ter fé, mas exatamente a liga entre tudo isso que o interessa. A própria magia, a capacidade de deslocamento dos sentidos de realidade que se experimenta diante de um dos números do ilusionista, as possibilidades de intervenção na ordem natural de tempo e espaço, e quando fala em magia, Burger quer mesmo é pensar os estatutos do cinema.
Pensar? A cada performance, Eisenheimer apresenta uma fórmula de pensamento teórico que terá desdobramento prático naquele próximo truque, e suas falas são realmente interessantes. Um discurso sobre o domínio da temporalidade introduz a mágica de fazer crescer instantaneamente uma laranjeira a partir de uma semente retirada segundos antes de um fruto, um papo auto-ajuda sobre a morte e a duplicidade do ser levam ao aparecimento de fantasmas em capuzes vermelhos dentro de um espelho, e assim
O Ilusionista quer ligar a experiência de contato com o mistério a todos os conceitos já muito bem admitidos para o funcionamento da vida como a conhecemos. Até ali, até o dia em que assistimos a um show de Eisenheimer, fomos criados a acreditar apenas no que vemos, no que podemos provar. Não é por acaso que, no terço final do filme, as apresentações tomam rumos espiritualistas, e o ilusionista passe a ser adorado quase como um semideus por seus espectadores: há sim algo de religioso naquela magia.
E quais estatutos? E qual cinema? Se chegamos às implicações religiosas, isso não quer dizer, no entanto, que elas sejam alvo do filme, muito pelo contrário. Destronando a ciência física, fazendo crescer árvore do nada, com frutas andando em câmera lenta, corpos ocupando o mesmo lugar no espaço, e também ultrapassando os limites da ilusão controlada da fé, pois não só cremos num espírito superior, na existência da alma, como podemos agora efetivamente ver materializada nossa crença, mortos trazidos para o palco de um teatro vienense,
O Ilusionista faz o elogio exatamente desse cinema que torna sua própria existência possível, o cinema dos efeitos especiais, desafiando a física, a religião, o bom senso. Mas se essa conquista tecnológica é tão saudada, se o uso que se faz dela é realmente tão encantador, há algo de muito incômodo nas razões de tamanho elogio. A ilusão, para Neil Burger, não passa mesmo de catalisador do entretenimento. Todos os fundos azuis, computações gráficas e demais geringonças servem mesmo para satisfazer o desejo de diversão barata, e qualquer tipo de transcendência dessa tarefa tão restrita está riscada das possibilidades desse cinema "ilusionista". Tudo existe pelo entretenimento, e não há exemplo melhor disso do que a apoteótica cena final, quando todos os pontos secretos da trama são revelados, e num rodopio da câmera que acompanha o êxtase do inspetor-chefe ao descobrir tudo, o filme sente ter cumprido seu dever de distrair e divertir, sob as gargalhadas incontidas do personagem de Paul Giamatti.
Não basta apenas tematizar o cinema e algumas de suas possibilidades, é preciso traduzir isso em imagem, fazer cinema propriamente, mas esse truque
O Ilusionista não sabe apresentar. Os efeitos de fechamento e abertura da íris, emulando o cinema mudo, por si só não completam a fórmula mágica de um filme. É possível sim tirar alguma diversão dali, se perguntar de onde saiu o sotaque estrangeiro de Edward Norton, curtir a esperteza de seu personagem na confecção de cada magia, ou mesmo se deliciar com os efeitos especiais um tanto barrocos. Mas é impossível não validar para o próprio filme a aplicação de uma crítica constante que Eisenheimer recebe, sempre que tenta afrontar o príncipe vilão do filme com uma de suas magias: os truques são muito bonitos e realmente desafiadores, mas não passam mesmo de grandes tolices.
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