A questão regional na agenda




Antônio Carlos Medeiros
é administrador e cientista político

No horizonte de 2007, a questão regional está de volta à cena política e à agenda econômico-social. Está de volta de várias formas e em várias iniciativas aparentemente desconexas - o que mostra, portanto, que está de volta como idéia e como agenda política e administrativa.

Em termos políticos, o presidente Lula já reuniu a maioria dos governadores da base aliada e já lançou as "pontes" para conversar também com os governadores Aécio Neves e José Serra.

Está claro que o que se deseja com esta articulação do presidente é a construção de uma coalizão nacional de governo. Com a negociação de uma agenda mínima para o país e para o Congresso Nacional.

Mas está claro, também, que o leito natural destas articulações regionais poderá ser o encaminhamento da negociação, no tempo, de um novo pacto federativo, com redefinição de encargos e responsabilidades entre os três níveis de governo. A pauta colocada pelo governador Aécio Neves já vai nesta direção: compensação pela Lei Kandir; estadualização das estradas; aumento Fundo de Participação dos Municípios e outras.

Além destes aspectos político-institucionais - redefinição de responsabilidades de cada um dos três níveis de governo/poder no Brasil -, as movimentações dos atores políticos apontam, também, para o retorno do enfoque regional nas agendas administrativas e econômicas dos governadores.

As articulações já começaram antes mesmo das posses dos governadores. Encontros bilaterais dos governadores Sérgio Cabral e Aécio Neves; Sérgio Cabral e Paulo Hartung; Paulo Hartung e Aécio Neves; Paulo Hartung e José Serra; Yeda Crucius e Aécio Neves. Tudo apontando para agendas administrativas de cooperação, principalmente no âmbito do sudeste.

Mas, também, encontros entre os novos governadores do nordeste - Marcelo Deda, Jaques Wagner, Eduardo Campos e outros. Tudo apontando, também, para agendas de cooperação no âmbito do nordeste.

Estas parcerias e articulações supra-estaduais resultarão em articulações de projetos regionais. Em termos de planejamento, trata-se de rearticular a importância da visão espacial sobre a visão setorial.

No sudeste, vários exemplos apontam para esta retomada da visão espacial e da questão regional no tratamento da política e da agenda econômico-social = segurança; turismo; cadeia produtiva floresta-indústria; cadeia produtiva gás-química; logística; e outros.

Já no nordeste, também o ressurgimento da visão espacial/regional, vai permitir o tratamento de projetos comuns: ferrovias, rodovias, portos, energia, integração do São Francisco e outros. São projetos supra-estaduais que vão permitir a superação de gargalos e levar a um novo patamar de desenvolvimento para a região. Um patamar de desenvolvimento para permitir que se programe possibilidades de "portas de saídas" do bolsa família, com o aumento das oportunidades de emprego e renda.

No plano micro-regional, também avançam a visão espacial e a questão regional. Elas se materializam, por exemplo, em boas formulações, como a do deputado federal eleito Luiz Paulo Vellozo Lucas, quando discute as cidades brasileiras.

Luiz Paulo coloca ao debate a boa idéia de redesenhar, digamos assim, as "instâncias federativas" do país. Hoje, o Brasil trabalha apenas com a visão espacial do município, que tanto pode compreender uma megalópole como São Paulo, como um micro-espaço, como Brejetuba, no Espírito Santo.

Este tratamento padrão, focado no município por tradição e por injunções políticas (proliferação de novos municípios), deveria ser substituído por uma visão mais flexível do espaço, para além da idéia-fixa de município. Esta visão mais flexível, contemplaria a possibilidade de focalizar as micro-regiões, tal como definidas pelo IBGE, e, também, focalizar os espaços metropolitanos e outros espaços, conturbados ou não.

Tudo somado, estamos recuperando a importância da questão regional - nos níveis meso, macro e micro - , agora no contexto da sociedade do conhecimento, articulada em forma de rede. Tudo convergindo para o adensamento de cadeias produtivas que se "espalham" pelo espaço local/regional/nacional/internacional. Mais ainda, tudo convergindo para arranjos políticos flexíveis na articulação do poder político que vai atuar sobre o espaço.