Um gosta muito de samba. E de rock. E de jazz. E de blues, baião, xote, ciranda, frevo, pastoril, maracatu, jongo. E de música clássica. E de congo. E de música sertaneja de raiz. E de...
Dois, não. Só gosta de rock. Acha nossa música popular uma caretice.
A diferença de idade entre Um e Dois passa de 20 anos. Mas são bons amigos. E, dia desses, pegaram a conversar.
-Já ouviu o som da banda "X"? - Dois provocou.
-Gosto de música ruim não, amigo.
-Ruim? Cê nem sacou o som dos caras, maluco...
-Amigo, pelo tempo que esses caras estão no mercado, se fossem bons eu já saberia. Não tenho tempo nem paciência pra lidar com tanto lixo que a indústria fonográfica tenta empurrar pela nossa goela. Nunca fui curioso, novidadeiro. Então, administro isso assim: não existe possibilidade de aparecer no mercado um músico genial, seja no Brasil ou onde for, e eu não ficar sabendo. Prefiro deixar a seleção natural acontecer. Ninguém barra um verdadeiro gênio por muito tempo. Acha que alguém poderia barrar Lenine, Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Cazuza, Renato Russo?
-Você é muito intolerante.
-Isso é tão radical quanto se eu dissesse que você é complacente com a mediocridade.
-Por que mediocridade, cara?
-Entre outras coisas, porque a formação de banda de rock, com guitarra, baixo, teclado e bateria, é uma coisa extremamente conservadora e careta. Condena ao ostracismo milhares de outros instrumentos existentes, com seus timbres, sua sonoridade única e sua tessitura particular. E condena, no mesmo pacote, os músicos executantes desses instrumentos.
-Cada um com seu gosto.
-Pois é, meu amigo. Acontece que esse negócio nasceu de um grande equívoco da cultura latina, a partir da frase "De gustibus et coloribus non disputantur" ("Gostos e cores não se discutem"). E é claro que gosto se discute, sim, porque gosto pode evoluir. Imagina se o sujeito que curte som breganejo, ou sertanojo, tem a mesma sensibilidade que um outro que prefere Milton Nascimento, Marisa Monte, Tom Jobim, Cole Porter ou Charlie Parker. Claro que não. A diferença de ouvido é enorme, a preferência temática também. Aí já tem a ver com a falta de espírito crítico, da quantidade de horas de leitura, essas tristezas crônicas do nosso País.
-Aí você já esta se metendo a julgar o trabalho dos outros.
-Admito. Mas o que existe de fundo, nessa nossa conversa, é que a sua geração é muito mais neocolonizada do que a minha, que também o é, reconheço. E o colonizador, como se sabe, não rouba apenas o dinheiro de um povo, mas também sua cultura, sua terra e seu ofício. Como diz Vital Farias em "Saga da Amazônia", "castanheiro e seringueiro já viraram até peão, afora os que já morreram como ave de arribação".
-Vital Farias?!
-Pois é. Para a Nova Roma, cultura popular e sanduíche valem absolutamente a mesma coisa. O importante, pra ela, é passar o rodo na cultura do mundo, porque cultura significa resistência, diferença, identidade. E o que os ditadores mais detestam é o que eles não conseguem sentir, entender nem comprar.
-Você tá louco.
-Pode ser, meu amigo, mas algo me diz que não demora e vai ser considerado brega falar português no Brasil.
Quando deu nesse ponto, Um e Dois, que têm suas diferenças estéticas mas conhecem também a solidez de sua amizade, resolveram mudar de assunto até uma outra oportunidade, quando pudessem voltar ao tema com mais tranqüilidade.
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